Coimbra  23 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Coimbra à frente

5 de Julho 2024

Coimbra sem respostas ou passa-culpas, é gerida por uma coligação de partidos consolidados e por forças políticas que só existem no papel ou são saudosistas do regime da ditadu­ra, estrategicamente colocadas à direita (com cumplicidades…).

Depois de ter sido prometida uma nova Coimbra ou uma Coimbra nova, convidamos os cidadãos de Coimbra a apreciar o que mudou na sua vida e na vida da cidade, excepto festas, festinhas e festonas (consoante o orçamento), estímulo do ego de quem tudo diz saber e pouco fazer, desvalorização e ameaças a quem discorda, perda de tradições válidas e manutenção ancestral do obscurantismo, aumento das multas por estacionamento (no­meadamente a doentes), cidade esventrada sem planeamento, inaugurações de obras que outros delinearam, prepotência e muitas páginas de desilusão.

Coimbra é estruturalmente de esquerda e socialista (vide as sucessivas vitórias distritais), por palavras e obras, a favor do esta­do social, pelos direitos humanos, pela promoção da igualdade, pelo bem comum dos cidadãos, pela garantia e qualidade do serviço público, pelo aproveitamento das capacidades das pessoas e suas formas organizativas em traba­lho, empresas, habitação, saúde, educação.

À esquerda, não deve haver discriminação de tendências, culturas ou grupos vulneráveis e de risco, sem caridade ou favores, sem usurpação de direitos, sem traficância de interesses. Com deveres, com generosidade, com solidariedade, com progresso.

A direita tem o seu espaço pró­prio, as suas formas de interven­ção legítima (como a caridade), o seu liberalismo e o estigma, a pre­sunção das elites e dos poderosos, a sua sobranceria e pedigree, o seu desempenho classista, através da direita moderada. Embora tam­bém apascentem radicalóides, trauliteiros e neo-nazis.

À esquerda, o Estado social providencia serviços públicos de saúde e educação sem segregação, investe na despesa pública, con­cede igualdade de oportunidades que protegem as minorias e os desfavorecidos, quem tem menos rendimentos é quem deve pagar menos impostos.

À direita, a saúde e educação são garantidas com domínio pri­vado, os impostos são reduzidos para todos, as grandes empresas são favorecidas e o serviço público é restrito, a sociedade é regulada pelo mérito de quem mais tem.

Ao longo dos 50 Anos pós-25 de  Abril, em eleições sucessivas, para múltiplos órgãos de poder, a direita tem-se unido em coligações, na ex­pectativa e usufruto do ganho elei­toral por via do método de Hondt utilizado para as candidaturas (como agora no actual Governo do País e da cidade de Coimbra).

À esquerda, salvo algumas excepções autárquicas em Lisboa e pouco mais, as forças políticas primam pelo isolacionismo, ab­dicando de plataformas eleito­rais que lhes seriam favoráveis, em nome do individualismo e separação de “quintas”, fazendo da falácia “é mais o que os divide do que os une” uma contradição com os princípios programáticos do Estado social.

Coimbra tem pecado por res­saltar o “purismo” (“nós é que somos os bons”), e não tem de­monstrado a humildade de ser capaz de transformar o diálogo em cedências secundárias e pro­postas comuns, dado que numa negociação séria o dogmatismo e as imposições conduzem ao fracasso da unidade.

Zeca Afonso, ainda uma voz dos cidadãos, entoa em “Cantares do Andarilho”: “Já fiz recados às bruxas, do Caselho à Portelada, dei-lhes a minha inocência, elas não me deram nada”. É hora de parar a autoflagelação.

Seria de ponderar a constitui­ção de uma coligação de esquerda em Coimbra, feita por quem vier por bem (PS, Cidadãos por Coim­bra, CDU, Livre, PAN e independentes), que afaste a vã glória de mandar, o triunfalismo de lana caprina, a verborreia de quem tudo julga saber, o marasmo das grandes decisões não tomadas (sobre alterações climáticas, socio­-demografia, sustentabilidade, desigualdades).

E, dentro da esquerda, reme­morar o que é o socialismo, citado na revista “Seara Nova”, em No­vembro de 1973: “é igual a liber­dade, mas liberdade verdadeira; em nome de utopias se têm escrito as mais belas páginas da história da humanidade” (António Lopes­-Cardoso); “não é a questão da propriedade dos meios de produ­ção, mas sim a questão das classes sociais numa sociedade economi­camente desenvolvida” (António Reis); “é um sistema que elimina as causas não naturais da desigual­dade e desenvolve as aptidões inte­lectuais, físicas e afectivas de cada indivíduo nele harmoniosamente integrado” (Fernando Namora).

O interesse em derrotar a de­magogia e o populismo da direita, a bem de Coimbra, impõe a união da esquerda, com uma liderança indiscutível e de proximidade, em detrimento de protagonismos in­dividuais, sectários e panfletários, seguindo o bom exemplo francês.

Com muitos amigos maiores que o pensamento, trazendo ou­tros amigos também, para levar Coimbra à frente!

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra