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Semanário no Papel - Diário Online

 

Mário Martins

Castanheira de Pêra: Eu queria escrever um texto…

29 de Junho 2017

Queria dizer que os bombeiros estiveram horas, horas e horas sem comunicações.

Que morreram seis pessoas em Sarzedas de S. Pedro, outras seis em Sarzedas do Vasco, mais duas na Moita e uma na Balsa.

Que o bombeiro Gonçalo foi mais do que herói.

Já em Castanheira, resgatado após o choque do carro de bombeiros com um Mercedes descapotável cujos ocupantes tentou salvar, de pé, firme, dizia: “Tratem primeiro os outros que eu estou bem”. Foi a enterrar na passada semana. Os outros, os quatro colegas que regressavam do combate à fase incial do fogo de Pedrógão, continuam a lutar pela vida em hospitais de Coimbra, de Lisboa e do Porto.

Que durante estes dias Castanheira esteve sem tv cabo e internet. Voltou dia 23 por volta das 08 da noite.

Que a onda de solidariedade é enorme. Chegam carrinhas de todo o lado, de Lisboa, do Porto, de Leiria, de Pombal.

Que, como me disse o presidente da Câmara, a quem ofereci os meus préstimos, não tem havido mais tempo do que para acorrer. Vai começar, agora, o tempo de estruturar ideias, planificar.

Que a Santa Casa da Misericórdia teve de comprar material para o Centro de Saúde utilizar.

Que as gentes de Castanheira de Pêra, cuja dignidade conheço há quatro décadas, estão a lutar incansavelmente: fornecer refeições aos bombeiros, recolher e separar os donativos (até sapatos rotos já tiveram de colocar num caixote de lixo…), dar abrigo aos que ficaram sem casa. Continua a lutar-se pela vida em Castanheira.

Que a tia Clarinda conseguiu, com a ajuda do filho, salvar uma das hortas e a casa. A horta do outro lado ardeu. Mulher que ainda em Maio foi a pé a Fátima, e regressou a pé, viúva, há muito que perdeu as lágrimas. Mas não a capacidade de lutar. “Não, aqui não estiveram bombeiros. Fomos nós que combatemos, com as mangueiras e os baldes”. Felizmente houve sempre água.

Que o Teddy está lindo, alegre, como sempre. Tem de ir em breve ao veterinário.

Que toda a gente diz que o número de vítimas mortais deve ser bem maior. Falam de um casal que ainda não apareceu, não sabem de uma comunidade de 11 ingleses que vivia na extremidade do concelho.

Que há jovens de tantos lados, mesmo de longe, que chegam e dizem: “Estou aqui para ajudar no que for preciso”. E lá estão, há dias, a trabalhar, a mostrar o valor da solidariedade.

Que o Zé Domingues, o comandante dos bombeiros que vi jogar a capitão do Sport Castanheira de Pêra e Benfica e é tio do João Carvalho, a grande esperança do Benfica, que o Zé Domingues está mais velho, envelheceu muito nos últimos dias.

Que aquela gente do sopé da Serra da Lousã, habituada a lutar, a dividir o cuidado de uns pelos outros, habituada a viver esquecida pelo Poder, luta sem lamentos, acorre aqui e ali. “Olha, agora tenho de ir ajudar a distribuir os jantares, depois falamos”. Olhar ainda perdido, sabe que pouca coisa mudará depois da tragédia, porque sempre tem sido assim.

Eu queria escrever um texto que contasse também o sofrimento profundo que preenche aquelas almas, que mostrasse a beleza da Praia das Rocas, que dissesse que a vila continua linda porque o fogo só deu umas lambidelas, poucas, aqui e além.

E queria escrever muitas coisas mais. Falar também do amor. Das histórias de tantos amores que habitam Castanheira de Pêra.

Queria escrever esse texto. Mas não sou capaz.

 

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