Coimbra  18 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Gabriel Silva

Casa dos Pobres: Direito a uma vida digna

7 de Junho 2019

O mundo não evolui sempre à mesma velocidade. Sabemos bem que a sociedade actual muda muito mais depressa do que acontecia nos séculos passados: veja-se como a Internet, com pouco mais de 30 anos, alterou as nossas vidas tão intensamente, ou como a maioria de nós já não imagina poder viver sem telemóveis, apesar deles serem ainda mais recentes que a Internet.

Acontece que, mesmo no nosso mundo tão acelerado, o ritmo de mudança varia bastante. Há períodos de relativa estabilidade, e outros em que tudo muda subitamente. Estamos, claramente, num destes momentos de mudança rápida: daqui a dez anos a sociedade vai ser bastante diferente da actual, devido a um factor principal: as máquinas vão desempenhar um sem número de tarefas que são actualmente desempenhadas por pessoas.

Naturalmente, trata-se de algo que tem vindo a acontecer há muito tempo. Os tractores substituíram os cavadores, já não se amassa o pão à mão, os aspiradores evitam muitas horas a varrer, as bombas de água substituíram os aguadeiros. As pessoas que faziam esse trabalho dedicaram-se a novas actividades, que exigiram mais qualificações, mas são mais bem remuneradas, e a sociedade melhorou.

O que aí vem, no entanto, é de outra natureza. Já não vão ser apenas trabalhos simples que as máquinas vão desempenhar. Estas vão absorver tarefas muito mais complexas, como conduzir um carro, prestar esclarecimentos pelo telefone, ver o que o cliente de um supermercado comprou e calcular o valor a pagar, servir os clientes de um restaurante. São muitos milhões de empregos que desaparecerão rapidamente.

Novos empregos vão surgir, esperemos que em número equivalente, embora eu tenha muitas dúvidas se será assim, se não vai ficar muita gente desempregada. Em qualquer caso uma coisa é certa: os empregos que vão sobrar ou surgir de novo serão de maior complexidade e exigência que os actuais. Nem todos serão capazes de responder a esse aumento de exigência.

A existência de muitos que não conseguem acompanhar o acréscimo de complexidade vai colocar à sociedade um enorme desafio, pois todos têm direito a uma vida digna, consigam ou não acompanhar a evolução fulgurante do mundo. Temos de dar resposta aos mais desprotegidos, aos que não tiveram sorte ou capacidade, talvez até pela idade que não ajuda a ganhar novas competências.

A tarefa fantástica que a Casa dos Pobres desempenha, de garantir o direito a uma vida digna, vai ser ainda mais necessária no futuro. A saúde da nossa sociedade estará ainda mais dependente de instituições como a Casa dos Pobres. Pois quando o direito a uma vida digna não é garantido, a sociedade enche-se de pessoas que nada têm a perder, e mesmo aqueles que têm recursos para viver com desafogo acabam por ter de se fechar atrás de muros e grades, prisioneiros na sua própria terra, pois uma sociedade sem justiça social não deixa ninguém incólume.

A Casa dos Pobres merece o nosso pleno louvor e apoio.

(*) Ex-reitor da Universidade de Coimbra

 

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