Coimbra  20 de Junho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Casa dos Pobres – da história ao apelo

25 de Janeiro 2019

A Casa dos Pobres de Coimbra é uma das mais notáveis instituições, no domínio do apoio social, da nossa cidade e região.

Com sementes lançadas na década de 30 do século passado, a Casa dos Pobres seria fundada a 08.05.1935 pela acção do tenente Rafael Sérgio Vieira, comandante da Polícia de Coimbra, integrando um projecto social de relevo que encetou no distrito em articulação com o Governador Civil.

O projecto contou com o auxílio público e ajuda do Estado e, para além da Casa dos Pobres, consubstanciou-se: na disponibilização de instalações modelares para a Esquadra da Polícia (na Alta de Coimbra), na adopção de medidas variadas para combater a crise de emprego, na criação e manutenção de um laboratório de análises anexo à Esquadra da Baixa da PSP para avaliação obrigatória e regular dos géneros alimentícios, – contornando a promiscuidade na hora da venda, designadamente do leite diário consumido, garantindo a boa qualidade do mesmo junto do público.

Para tal fim a edilidade conimbricense associou-se à causa e cedeu «para os mendigos», parte de uma casa no Pátio da Inquisição, que em tempos havia sido uma fábrica, e que acolhia, ao tempo, diversas instituições: uma Creche, o Grupo Musical Artístico e o Dispensário Anti-Tuberculoso.

Em particular, foi a parte da Creche que seria cedida para acolhimento aos mendigos, designadamente, dois amplos salões, perfeitamente adaptáveis a dormitórios. A facilidade de acesso e as condições de conservação pesaram também na decisão, conforme se comprova pela análise das notícias veiculadas em diversos jornais da época, em especial em O Despertar, órgão de comunicação social que fez parte da Comissão Executiva fundadora.

A Casa dos Pobres veio a ser inaugurada como referi, oficialmente, a 08.05.1935, na presença de figuras distintas da cidade: Dr. Frederico Sanches de Morais (presidente da Sociedade de Defesa e Propaganda de Coimbra), Dr. Fernandes Martins (advogado da Comarca e que veio a ser presidente da Casa dos Pobres durante vários anos), Dr. José dos Santos Bessa (vice-presidente da CMC), Dr. António Rodrigues (em representação do Governador Civil onde desempenhava a função de Secretário-Geral) tenente Carlos Carmo, ou Dr. Costa Rodrigues, entre outros.

Na notícia desenvolvida relativa à inauguração, que pode ser consultada em O Despertar, de 11.05.1935, colhem-se elementos adicionais referentes ao envolvimento na causa pública: a existência de um fogão moderno com capacidade para fabricar 500 refeições (adquirido por preços moderados aos agentes da Fabrica Tomaz Cardoso do Porto (Plácido Vicente & C.ª Limitada); ou os donativos da Associação Comercial e Industrial de Coimbra e de anónimos; bem como a entrega do «Fundo Especial de Repressão da Mendicidade», no valor de 5 115$54, iniciativa do Governador Civil do Distrito, capitão António Augusto Monteiro, que remontava a 1931.

Com maiores ou menores dificuldades a Casa dos Pobres sobreviveu e chegou aos nossos dias superando os desafios e contornando obstáculos: em 1988 foi-lhe conferido o Estatuto de Utilidade Pública; em 2001 transitou para a Praça do Comércio; a 28.06.2011 inaugurou as novas instalações em S. Martinho do Bispo; e, agora, em face das necessidades crescentes propõe-se aumentar as suas instalações, no domínio de apoio social, com uma nova valência.

Tal como se escreveu na altura da sua fundação «Muitos poucos fazem muitos», pelo que todos temos o dever de contribuir, consoante os recursos de cada um, para tão generosa Obra. Sem bandeiras partidárias ou ideológicas devemos manter bem erguida a Bandeira da Solidariedade Humana.

Auxiliemos, pois, tão notável instituição que tanto honra e serve Coimbra e sua região.

(*) Historiador e investigador

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