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M.L.

Carta de leitor: O IPO de Coimbra e a ideia que fica

22 de Setembro 2017

Aparentemente, há elites na nossa comunidade hospitalar com uma visão que em nada as prestigia.

Na passada segunda-feira, o Jornal Correio da Manhã, no estilo coerente da sua escola de jornalismo de investigação a que nos tem habituado, noticiou alguns aspectos menos positivos relativos à situação do Instituto Português de Oncologia de Coimbra.

Dá conta o CM da falta de médicos, nomeadamente de cirurgiões plásticos, situação que relaciona com o aumento das listas de espera para cirurgia. Além disso, evidencia outros aspectos que estarão a criar constrangimentos, como o custo com os medicamentos, manutenção de equipamentos, entre outros.

O Correio da Manhã baseou-se no relatório e contas de 2016 da instituição e, portanto, é factual, mas, como é hábito, com ou sem truques da Imprensa portuguesa, um tom alarmista não significa que os problemas tenham a dimensão que se lhes parece querer dar.

Até aqui nada de novo, CM fiel a si próprio, só o compra e lê quem quer. O grave foi o que veio depois.

Veio ao terreiro o presidente do Conselho de Administração do IPO de Coimbra defender o hospital e procurar justificar a situação, em entrevista, no dia seguinte, ao Jornal de Notícias. E se a situação até parecia bem simples de resolver, como aqui já demos conta, pelo histórico do CM ao dar notícias fora do contexto, o gestor hospitalar segue um caminho inacreditável.

Em primeiro lugar, assume as carências. É um facto, o IPO de Coimbra não tem qualquer profissional com a especialidade de cirurgia plástica e reconstrutiva. Mas, depois, justifica a questão das listas de espera ao afirmar que a prioridade da instituição é tratar as pessoas e não a reconstrução mamária.

Como assim, pergunta o cidadão? Naturalmente que é preferível estar vivo e amputado do que falecido e de corpo inteiro. Mas não se pode compreender haver um responsável a afirmar que uma reconstrução mamária é uma “situação benigna” e que, por isso, é secundária.

Será bom recordar a definição da Organização Mundial de Saúde: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”. Felizmente, há muito tempo, fizemos a transição de um modelo biomédico, focado em tratar a doença, para um que tem como objectivo a pessoa, no seu todo.

Aparentemente, há elites na nossa comunidade hospitalar com uma visão que em nada as prestigia.

Além disso, tendo em conta o aumento de poder conferido ao paciente, por via da sua organização em associações de doentes, as quais, cada vez, desempenham um papel de maior relevo no sistema de saúde (…), o IPO de Coimbra parece posicionar-se com uma estratégia que diz ao doente que ali não vai encontrar o melhor para si.

E isso não é verdade. Estou certo que naquele hospital pode não haver cirurgiões plásticos, mas há profissionais de saúde de todas as áreas, de uma notável qualidade técnica e humana, os quais todos os dias trabalham no sentido de fazer o melhor pelos utentes.

Resumindo, quando se diz o que não se deve, e se falta ao que se deve dizer, não se serve. Perde o IPO, perde Coimbra e perde Portugal.

 

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