Coimbra  23 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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Sindicato Independente dos Médicos

Carta aberta do SIM/Centro a Correia de Campos

10 de Julho 2020

SIM imagem

 

Senhor Professor Doutor Correia de Campos

Excelência,

Começo por cordialmente lhe agradecer a sua tão elucidadora participação no Jornal de Sábado da SIC Notícias, de 04 de Julho de 2020. Não posso contudo, deixar de tecer alguns comentários.

Um primeiro, para referir o facto de em muitos locais deste país, o rastreio da epidemia em curso, se assemelhar a uma guerra relatada pelo nosso Raul Solnado: o fecharem às 16h00 de 6.ª feira, para só reabrirem às 09h00 de segunda-feira, como se esta nossa guerra fosse de fim-de-semana ou de férias.

Um outro, referente às virtudes dos Centros Hospitalares.

No Centro Hospitalar de Leiria, houve diminuição da capacidade clínica em Alcobaça e Pombal.

A assimilação de Fátima teve consequências catastróficas no afluxo de doentes à urgência do Hospital de Santo André em Leiria, até pelo número de utentes residentes nos lares de Ourém – Fátima.

No caso do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), pela dimensão das instituições fundidas, as consequências foram ainda mais profundas. Procedeu-se à fusão de dois Hospitais Centrais, referência para mais de dois milhões de utentes. Tal não seria dramático se feito com critérios devidamente estudados. Mas, estudos prévios ou posteriores são coisa, que tal como a Ministra Marta Temido afirmou são inexistentes, ainda se os restantes Hospitais da Região Centro estivessem em condições para assegurar a assistência às pessoas da sua região…

Vejamos alguns exemplos:

– O Hospital da Guarda, tem carência crítica de Cardiologistas, Imagiologistas e já agora também uma carência importante de Cirurgiões e Ortopedistas entre outros;

– No Hospital de Castelo Branco, repete-se um panorama semelhante, com carência muito importante de clínicos em diversas áreas médicas e Cirúrgicas;

– Em Aveiro, o Hospital Infante D. Pedro, luta com carências profundas em termos de espaço, mas também de médicos de diferentes especialidades;

– No pólo dos Covões, do CHUC, fecharam nos últimos anos Infecciologia, Gastrenterologia, Urologia, Neurologia, Neurocirurgia… mais recentemente as enfermarias de Pneumologia (incluindo áreas de diagnóstico) e de Cardiologia.

No caso da Cardiologia importa referir que este Serviço dispõe de uma unidade de Hemodinâmica moderna e recentemente renovada, uma Unidade de Cuidados Intensivos Coronários com excelentes condições, Enfermarias e ainda uma série de Meios Complementares de Diagnóstico.

Na área cirúrgica, o Hospital dos Covões, dispõe de Blocos Operatórios de excelente qualidade, tanto para a Cirurgia de Ambulatório como para a Cirurgia Programada, Blocos desde a fusão progressiva e profundamente sub-aproveitados.

Já no período pré-Covid se tinha assistido ao encerramento de camas cirúrgicas, agravando-se a situação com o período de contingência Covid. Mas pasme-se: com o aligeirar das medidas de contingência e o retomar da actividade assistencial foram encerradas mais camas cirúrgicas, incluindo algumas destinadas ao retomar de Cirurgia de Implantes Cocleares.

Nos últimos anos, foram encerradas no Hospital dos Covões mais de 250 camas e neste último período nos Hospitais da Universidade de Coimbra foram encerradas mais algumas. Por exemplo, em Setembro de 2019, o Serviço de Pneumologia perdeu 10 camas em Coimbra e agora no período pós contingência foi encerrada a enfermaria dos Covões, tudo somando mais de 30 camas em 9 meses…

Queria terminar com o desejo de que os profissionais ligados à Escola Nacional de Saúde Pública, como é o seu caso, se dedicassem menos a, numa obsessão doentia, destruir o “poder médico” nas organizações de saúde e se dedicassem mais a organizar e planear, com o espírito de colaboração sadio, formas e modelos de “salvação” do nosso SNS. Tendo por base estudos sérios, uma planificação transparente e coerente da assistência às populações das diferentes regiões do País.

Mau seria, afirmarmos, sobre aqueles responsáveis que hoje dizem abraçar o SNS, que ao nos abraçarem nos apunhalavam pelas costas.

Com as minhas mais cordiais saudações,

Coimbra, 6 de Julho de 2020

José Carlos Almeida

Secretário Regional do Sindicato Independente dos Médicos/Centro