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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Carta aberta aos “donos” da História

14 de Maio 2021

Após algum tempo de diálogo, muito profícuo entre as partes, os órgãos autárquicos da Freguesia da Pampilhosa, Município da Mealhada, decidiram aceitar a minha proposta para investigar e passar a escrito a história da sua comunidade, tendo como modelo a monografia da freguesia de Souselas, editada em 2013.

Tenho raízes familiares na freguesia pampilhosense, bem conhecidas, por sinal, e uma intensa vida social, onde fiz muitas amizades ao longo dos anos e passei bons pedaços da minha vida. Cheguei a ponderar, em várias ocasiões, inclusivamente, habitar naquele território, que deu ao mundo personalidades de muito relevo e prestígio, em diversas áreas – que aqui não enumero, sob pena de destacar uns e diminuir outros.

É, no contexto regional, uma das freguesias com maior pujança associativa e cultural: quem não conhece o Gedepa, por exemplo, e a sua intensa actividade na defesa da nossa História, Memória e Identidade ao longo de décadas? Orgulho-me de ter colaborado, a determinada altura na publicação da sua revista, e de ter participado, generosamente, em diversos eventos patrocinados por aquela instituição.

De repente fui surpreendido por um pé de vento nas redes sociais. Um projecto pensado e concebido de e para todos, apolítico, portanto, foi tomado de assalto por gente sem grandes escrúpulos e usado para fins circunstanciais, na justa medida de ambições pessoais.

Se o ridículo pagasse imposto – ou quiçá o ressabiamento – talvez juntássemos uma pequena fortuna em prol dos mais desfavorecidos! Vieram a terreiro os velhos do restelo, usando e instrumentalizando publicações de outros historiadores e investigadores – sem que eles, certamente, soubessem que as suas obras e, por arrastamento, os seus nomes, andavam a serem desenterrados para exibição na praça pública, sem a devida autorização ou consentimento.

Como se eu os não fosse respeitar, como se eu não fosse amigo de alguns, como se eu alguma vez tivesse negado algum contributo, como se eu, no fundo, fosse um boy qualquer, ou um homem sem obra, sem currículo, sem passado reconhecido.

Penso que estamos a atingir uma certa fase de loucura que a pandemia ajuda a explicar, mas não justifica de todo. Sejamos, pois, claros: a freguesia da Pampilhosa, à semelhança de milhares de outras freguesias, tem imensos trabalhos sectoriais, sobre a sua terra e as suas gentes, mas não tem nenhuma monografia exaustiva e actualizada, de base histórica, compilando os aspectos essenciais da sua comunidade, da origem aos nossos dias, feita com o rigor artis. Recomendo, a este propósito, que acompanhem o grupo do Facebook “Monografias Regionais de Portugal” para um melhor esclarecimento sobre a matéria.

A dada altura da discussão que se armou, com interesses óbvios, num grupo do Facebook intitulado “Amigos da Pampilhosa Livre”, cheguei a pensar que a história da freguesia tinha dono, sendo assim pouco livre: propriedade a toda a força de uns em desmerecimento de outros. De que têm medo afinal?

Que fique bem clara e registada a minha posição sobre o assunto: a história, seja ela em que parte do mundo for, pertence à comunidade no seu sentido colectivo, e enriquece-se com múltiplas visões e perspectivas de técnicos e cientistas – incluindo, desse modo, a de muitos historiadores.

O resto é política de Facebook, onde se acusa, julga e condena, tudo e todos, a troco de protagonismos estéreis. A Pampilhosa merece mais e melhor. E cá estarei para assumir todas as responsabilidades inerentes a tão honroso projecto – não fosse eu um homem de compromissos!

(*) Historiador e investigador