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João Pinho

Bruno de Carvalho: o fim de uma estratégia de poder

29 de Junho 2018

O futebol e a política são duas áreas de excelência para a concretização de estratégias de poder, pessoais e de grupo, acedendo a dinheiro e protagonismo, alimentando a conta bancária e o ego dos líderes.

Bruno de Carvalho era um desconhecido na praça pública quando emergiu a disputar as eleições no Sporting. O seu discurso, desafiador e corajoso, conquistou os adeptos e parecia anunciar uma nova era no clube, feita de verdade desportiva, competência e títulos.

Os primeiros anos na liderança, tal como os primeiros tempos de Sócrates como primeiro-ministro, foram promissores: as ideias inovadoras para o desenvolvimento do futebol como o VAR, defendidas por Bruno de Carvalho, foram de certa forma o programa POLIS que o nosso ex-primeiro ministro aplicou em muitas cidades para recuperar zonas urbanas e conferir atractividade.

Em ambos os casos o poder totalitário cegá-los-ia, retirando lucidez e liderança, e ambos caíram no abismo vergados ao egocentrismo doentio, à teia de interesses e de influências, a jogos perigosos e teimosias desnecessárias – com apoio nada desinteressado de alguns órgãos de comunicação social que fizeram do assunto não a notícia desejável, mas novelas e tempos de antena comprometedores.

O caso de Bruno de Carvalho mostra, em toda a linha, os perigos de uma estratégia de poder calculista e extremista. Ao longo de sete anos e ancorado no saneamento financeiro, na contratação de Jorge Jesus e nos títulos do futebol e de algumas modalidades, o ex-presidente foi crescendo aos olhos dos adeptos até atingir o estado de semi-Deus ou deusificado.

Diz o povo, com algum acerto, que a verdade tal como o azeite acaba sempre por vir ao de cimo. Pouco depois de ser reconduzido na presidência com quase 90 por cento dos votos Bruno de Carvalho deslumbrou-se com tanto poder e julgou-se o imperador do reino sportinguista, inabalável, inamovível, eterno.

Perante um desaire natural no quadro competitivo da principal equipa de futebol, transferiu o odioso para os jogadores, depois para os adeptos, em seguida para os corpos sociais e, mais tarde, para os jornalistas. O incidente de Alcochete veio coroar a sua arrogância, prepotência e laivos de esquizofrenia.

Incapaz de se olhar ao espelho, e de constatar a morte lenta a que estava a conduzir o clube na ânsia de se perpetuar no poder, Bruno de Carvalho fez do Sporting e dos seus adeptos gato e sapato, não olhando a meios para atingir os fins. O mais eclético dos clubes portugueses não merecia esse padecimento.

No passado dia 23, quatro meses após ter sido reeleito com 90 por cento dos votos, Bruno foi apeado da liderança do SCP, de forma expressiva e com mais de 70 por cento de votos a favor de tal solução, forçando-o a uma saída indigna pela porta dos fundos e a um exílio mais do que certo.

A democracia e o estado de direito derrotaram, pelas vias legais, os perigos emergentes trazidos por um ídolo de pés de barro e candidato a ditador – pondo fim a semanas de excessos de linguagem, clima de guerrilha e batalhas facebookianas.

O clube irá agora reiniciar um novo ciclo que se espera feito por gente de bem e à altura dos pergaminhos de tão nobre instituição portuguesa. Que todos tenhamos aprendido qualquer coisa com esta história, a qual perdurará durante muitos anos como o mais triste episódio ocorrido no reino do leão.

(*) Historiador e investigador

 

 

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