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Mário Carvalho

Borba: Do facilitismo à irresponsabilidade

26 de Novembro 2018

Ao acompanharmos diariamente as notícias referentes à tragédia de Borba na esperança do “final infeliz” da recuperação dos corpos desaparecidos, cresce-nos a partir de dentro uma certa revolta.

Trata-se de uma revolta direccionada aos demais actores com responsabilidades políticas pelo “jogo do empurra” e inclinação para “sacudir a água do capote”, bem como da insuficiência de carácter para assumir falhas.

Se tivermos em conta o que tem sido avançado, ficamos a saber que remonta ao ano de 1994 a informação face ao problema da degradação rodoviária na zona de extracção dos mármores de Borba -Vila Viçosa.

Saiba-se que em 1998 já o Plano de Urbanização de Borba previa a desactivação da EM 255; em 2002, 2008 e 2015 o Instituto Superior Técnico e a Universidade de Évora fizeram estudos e produziram relatórios a alertar para a gravidade da situação. Estes estudos foram dados a conhecer, pelo menos, à Direcção Regional da Economia do Alentejo e à Câmara Municipal de Borba.

Até alguns empresários do sector já tinham alertado para a iminência da degradação das condições de segurança da via.

Assim sendo, e só por aqui, não só a Câmara Municipal de Borba sabia, como também a Administração Pública teria a obrigação de estar ao corrente da situação. Ou seja, a ter em conta as datas em causa, foram vários os quadrantes políticos que passaram pela autarquia e pela governação que fizeram “orelhas moucas” e desvalorizaram uma tragédia anunciada.

Para o caso em concreto a estrada era municipal o que implica uma responsabilidade directa do Município.

Não querendo aqui apontar responsabilidades criminais directas a quem quer que seja, porque isso cabe a outras instâncias, desde já podemos identificar fortes responsabilidades morais a todos os níveis, deixando as primeiras para quem de direito.

Reservamo-nos, no entanto, ao dever da indignação perante aquilo que agora nos tem sido mostrado e relatado. Afinal, como foi possível manter uma estrada aberta naquelas condições?

Perante tamanhas evidências, resgatamos racional e emocionalmente uma resposta interior. E certamente cresce em cada um de nós a revolta perante algumas respostas que vamos ouvindo.

Mais uma vez, morreram pessoas por objectiva e evidente irresponsabilidade. E pelo facilitismo que voltou a fazer a ganância falar mais alto.

Será que, mais uma vez, a culpa irá morrer solteira?

Para quando um país onde a palavra “responsabilização” faça parte do dia-a-dia do exercício da actividade autárquica e/ou empresarial sobre os demais?

A visão “terceiro-mundista” com que continuamos a encarar determinadas coisas devia fazer-nos corar de vergonha. Por isso, há que apurar responsáveis “doa a quem doer”!

(*) Autarca do PS