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José Belo

Autárquicas: Coimbra à mão de semear

3 de Janeiro 2017

Há quem defenda que chegou a “hora limite” de os dados serem lançados, no que diz respeito às próximas eleições autárquicas em Coimbra.

São muitas as vozes a dizer que há um verdadeiro atraso estratégico, neste processo eleitoral por parte do PSD.

Esta incerteza e fantasia, que se cria, e que leva ao aparecimento de iniciativas avulsas, é um “erro colossal”, dizem uns. Ninguém se pode esquecer que, aos problemas caseiros do PSD para resolver, acrescem aqueles que resultam da inevitabilidade da coligação com o CDS/PP, sublinham, outros, com alguma lógica.

E neste esforço de convergência partidária é preciso ter em conta que, quando se acabarem as negociações com o CDS, o Verão pode espreitar, porque não será difícil antecipar as dificuldades de percurso que daí podem resultar.

Alguém me perguntava se num processo tão específico como são as autárquicas não terá de haver um desenho, uma análise e uma ponderarão quase caso a caso. Onde não caibam soluções cegas, daquelas próprias dos distantes gabinetes de Lisboa?

Será que os órgãos regionais partidários são incapazes de, por si, ajudar, com voz forte, a construir soluções locais adequadas no tempo certo e na substância política?

No PSD está-se a falar de coisas muito sérias e importantes.

Tem de haver a ambição de o PSD reconquistar a presidência da Câmara de Coimbra para se poder alterar o rumo que está a ser seguido. Por Coimbra e pelos seus munícipes.

Por outro lado, Pedro Passos Coelho tem à sua frente um grande desafio, até de sobrevivência política.

A sua missão consiste em aguentar as câmaras municipais onde o PSD é poder e conquistar outras, como a de Coimbra, que está à mão de semear pela forma nada ambiciosa e pouco feliz como tem sido gerida. Esta constatação é unânime em todos os quadrantes políticos.

Claustrofobia

Lembro palavras do actual presidente da Assembleia Municipal, Luís Marinho, que pertence ao Partido Socialista, vindas a público, recentemente, através do “Campeão”, onde, em jeito de balanço e de forma insuspeita, deixou a seguinte recomendação, fruto da avaliação do desempenho político do actual executivo camarário conimbricense: “A governação de Manuel Machado deveria melhorar a relação com a cidade, sendo mais aberta e transparente”.

É urgente que a coligação do PSD com o CDS se concretize e seja capaz de construir uma agenda substantiva, bem cheia daquilo a que aspiram a cidade e as freguesias, com protagonistas políticos a inspirar a esperança nos eleitores de poderem ter um Poder Local com que se possa respirar democraticamente, com uma nova visão, novas prioridades e uma urgente melhoria da participação cidadã.

É preciso dar dinâmica à relação com os munícipes e com os fregueses. Por isso, mais demora na divulgação das ideias-chave, na indicação dos candidatos e na composição de listas conjuntas nada ajudam.

Uma campanha com «timings» desajustados só aproveitará a quem está agora no poder.

A oposição tem de ter tempo para poder ir para o terreno para gerar empatias sociais, saber captar as emoções políticas em cada eleitor e passar a sua mensagem.

Para isso é preciso calendário, que permita concretizar uma via de comunicação e cumplicidade entre os candidatos e os munícipes, ajudando muito “à missa” a boa imagem daqueles de quem se exige que respirem seriedade, inspirem confiança, sejam conhecidos, possuam bom senso e tenham sentido de medida.

Num contexto eleitoral, a relação de proximidade e a rua são insubstituíveis, porque cada vez mais o eleitor gosta do contacto com o candidato, sendo até desejável ele poder chegar a todos os espaços do Município, transmitindo ideias claras, fáceis de perceber, capazes, por isso, de criarem afectos, mesmo na defesa determinada e convincente dos seus projectos e objectivos.

Tudo isto são galões, que podem ser decisivos na hora de votar, levando os eleitores a escolher a sua mensagem dentre as demais, acabando por permitir a eleição com a confiança do seu voto.

Sabe a pouco

Porém, para levar a “carta a Garcia”, repete-se, é necessário ter tempo. Tempo que sobra a quem está no poder, onde o candidato às próximas eleições está encontrado. Chama-se Manuel Machado. Ponto.

Mas a sua “gestão” ao longo do mandato sabe a muito pouco, pelas fragilidades que tem exibido.

Tem faltado tanta coisa importante, para além do que o dr. Luís Marinho, de forma rigorosa, pôs a nu.

Falta-lhe uma ideia de modernidade para Coimbra, que se tornou numa cidade desmazelada, suja, sem investimento, onde desaparecem por ano mais empresas do que aquelas que são criadas.

Ninguém vê, no terreno, a ser implementado, um Plano Estratégico para os próximos 10 / 15 anos e com pés e cabeça. Que seja ambicioso. Capaz de pensar em colocar Coimbra no «top 10« da Península Ibérica a nível económico, cultural e de qualidade de vida.

É indispensável uma Coimbra mobilizada para poder atingir níveis de crescimento acima da média da Península Ibérica e a aspirar a ter uma geração líquida de, pelo menos, 1 000 empregos por ano, através de apostas diversificadas, nomeadamente nas indústrias inovadoras e de juventude. A saber olhar para as questões demográficas e para as políticas fiscais com elas relacionadas (IMI, por exemplo).

Urge estimular as nossas vantagens comparativas, nomeadamente no custo do factor trabalho e na mão-de-obra qualificada, que todos os anos sai das nossas instituições educativas de referência. A tornar Coimbra apetecível pela sua qualidade de vida, pelos custos de vida e de contexto das empresas.

E, por último, faltaram a este executivo camarário, faltaram ao dr. Manuel Machado, a energia e a criatividade necessárias para que Coimbra pudesse reforçar a sua centralidade política, económica e cultural na região Centro, em vez de assistirmos a um preocupante definhamento da respectiva liderança em tudo o que são questões regionais.

Esta não é a Coimbra e o concelho que a maioria dos eleitores quer. Seguramente.

(*) Vereador do PSD na CMC