Coimbra  27 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Atentado ao património: A Torre de Santa Cruz desapareceu há 82 anos

2 de Fevereiro 2017

 

 

17 - Joao Pinho O momento da derrocada

O momento da derrocada

 

As autoridades procedendo à remoção do entulho e inspecção

 

A 03 de Janeiro de 1935, pelas 17h20, Coimbra testemunhava a derrocada da Torre de Santa Cruz, também conhecida por Torre dos Sinos – um ex-libris da cidade que fez parte, durante séculos, do complexo monástico de Santa Cruz.

Contudo, há muito que se sabia do estado de ruína avançada do monumento. Nesse sentido, desde o início do século que se promoveram diversas vistorias, solicitadas pela Escola Industrial e Comercial Brotero (que antecedeu naquele espaço a Escola Secundária Jaime Cortesão), e que foram confirmando os sinais de progressivo desnivelamento da estrutura.

Uma das vozes que por esses tempos mais se indignou, foi a do ilustre Dr. Joaquim Martins Teixeira de Carvalho que denunciou, em periódicos, a vergonhosa situação a que havia chegado o monumento, em perigo de ruína e a ser utilizado para fins impróprios.

Sem que ninguém agisse no sentido de inverter o rumo dos acontecimentos, a situação atingiu o limite, ameaçando a integridade física dos transeuntes e edifícios contíguos – forçando as autoridades a provocarem o trágico desfecho, através da injecção de água nas fundações. A Gazeta de Coimbra fazia a seguinte descrição do acontecimento: «Queda imponente, majestosa, gradiosíssima dum belo-horrível deslumbrante».

Coimbra e região deixavam perder, desta forma, uma torre de características únicas, exemplo mal estudado de arquitectura remota. Uma torre edificada no séc. XVI, no âmbito das reformas promovidas pelos cónegos regrantes de Santa Cruz, sobre um conjunto de construções acasteladas que remontavam ao séc. XIII, a que se chamava Torre Velha, no local em que outrora existiu a porta mourisca.

É variada a documentação que se refere à torre: em 1166, D. Afonso Henriques autoriza que o mosteiro crúzio empreenda várias edificações entre elas uma torre e celeiros; em 1190, D. Sancho I, perante a invasão serracena, autoriza os frades crúzios a removerem para lugar seguro os ataúdes dos soberanos portugueses e de outros egrégios defuntos, para o que previamente adquiriram algumas moradas de casas junto a torre de Santa Cruz.

Depois da derrocada pouco se fez para preservar os achados, levantando muitas reservas a actuação das autoridades nesta matéria. Mas sei que os sinos de Santa Cruz continuam a tocar, pois foram refundidos, de grandes tornando-se pequenos, e aplicados nas várias réplicas de monumentos religiosos nacionais do Portugal dos Pequenitos, cumprindo um desejo do Prof. Bissaya-Barreto.

A discussão sobre o destino a dar aos terrenos onde estivera implantada prolongou-se no tempo, ficando a área com aspecto de abandono e desleixo. Por fim, o terreno, pertença da diocese, seria trocado em 1968 com terrenos municipais localizados na rua de António José de Almeida. Mas, só no mandato do presidente Mendes Silva (1983-1985) se aprovou, construiu e concluiu, a bela escadaria nela se integrando a setecentista Fonte dos Judeus, proveniente do muro ao cimo do pavilhão do peixe do Mercado Municipal.

Hoje, quem por ali passar, não vislumbrará nenhuma evocação do desaparecido monumento. Não há nada que relembre, que informe, que nos projecte do presente para o passado. Excepção feita às pombas e gatos que continuam, ontem como hoje, a frequentar a zona da desaparecida torre de Santa Cruz.

(*) Historiador e investigador