Coimbra  19 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Associação Académica de Coimbra/OAF – o tempo de reunir

29 de Abril 2022

O declínio da AAC começou não na concretizada histórica descida a um escalão humilhante, mas há alguns anos atrás, sensivelmente, quando José Eduardo Simões deixou de ser o seu presidente, pouco depois de conquistar um título nacional muito desejado – Taça de Portugal – e de levar a equipa à Liga Europa. Sempre pensei que a forma como tudo se processou, na altura, acabaria por concretizar-se num desfecho trágico, mais ano menos ano – a não ser que um pequeno milagre tivesse acontecido, o que é raro: a emergência de uma liderança tão ou mais forte do que aquela que saía de cena.

A História ensina-nos que a queda de uma forte liderança, substituída por alternativas não consolidadas, fragiliza, a curto/médio prazo, as instituições, embora no caso da AAC/OAF tenha sido acentuada pela ausência de transição, isto é; de pontes capazes de unirem margens divergentes em prol de uma mesma causa – algo que entre nós, infelizmente, é utópico e transversal a outras áreas de actividade.

O caminho que conduziu a nossa Briosa ao precipício teve, pelo caminho, percalços que ajudam a explicar o sucedido: uma boa época desportiva no ano anterior, na qual inesperadamente quase se conseguiu a subida de escalão, fazendo aumentar não só as expectativas, mas também a pressão sobre jogadores e órgãos sociais; a discussão estéril em torno da constituição da SAD; a incapacidade de mobilizar o tecido económico-social; a ausência de recursos financeiros geradores de activos competitivos sólidos.

É fácil, agora, apontar o dedo a quem esteve a segurar os cornos do touro, perdoem-me a expressão. E mais fácil ainda bater naqueles que tudo fizeram, estou certo disso, para evitar o colapso. O que tem sido escrito e veiculado pelas redes sociais é, no mínimo, assustador e revelador da ingratidão de muitos sócios e simpatizantes pela atual direção, atuação que merece, apesar do insucesso desportivo, viva repulsa, pois o mundo do futebol é duma exigência e disponibilidade tal que tragam, não raras vezes o sossego pessoal, familiar e profissional. Tenho a certeza que estes homens e mulheres, que alguns tentam amesquinhar e elevar à condição de “coveiros”, fizeram da AAC uma causa, tudo deram por ela, e ninguém sofre ou sofrerá mais do que eles pelo insucesso a que ficam ligados para sempre.

O futuro próximo será muito difícil para a AAC, cuja história e valores merecem, indiscutivelmente, figurar no primeiro escalão competitivo do futebol nacional. Disso ninguém tem dúvidas: haverá outro clube capaz de gerar tanta simpatia no seio de outros clubes? Que aposte na relação sólida entre a vertente estudante/futebolista? Que possa representar a região de forma tão consensual?

Os dias negros chegaram, mas a história não acaba aqui! Se, a massa associativa academista, as figuras históricas do universo dos “pretos”, as instituições de referência da região, e os bastidores do futebol, perceberem que têm muito mais a ganhar com uma Académica de primeira do que de terceira, acredito que a luz voltará a iluminar o clube onde muitos seriam capazes de a acompanhar acaso ela jogasse no céu.

É hora de reunir, de estruturar um projecto desportivo sólido e credível, de permitir que a AAC/OAF possa captar investimentos sem restrições – os quais, em face da evolução que o desporto-rei vem acusando são essenciais na afirmação enquanto clube e, no caso academista, de uma pequena potência de primeiro plano no futebol nacional, onde por mérito e competência de décadas, não só de História, mas também de estórias, merece figurar.

(*) Historiador e investigador