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Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

As festas e os foguetes

25 de Junho 2018

Já nem os posso ouvir estralejar. Sim, aos foguetes da festa, aqui da terra.

A alvorada é às 08h00. E é cada petardo que o Santo deve ficar arrasado, como eu. Aqui na aldeia tem havido festa, faz quatro dias.

É em honra de S. João. Um Santo popular, um discípulo do Senhor Jesus. Um dos mais carismáticos do tempo e das amizades do Salvador dos Judeus. Pregador nato. Baptizou Jesus. Mas morreu jovem, aos 30 anos. Herodes mandou-o decapitar.

Deixando a história, a Bíblica, foco-me nos foguetes. Não na festa. Essa é do povo e bendiz o Santo. Faz com que as nossas gentes, onde me incluo, recordem o seu bendito nome e as benfeitorias das suas palavras.

O palco faz-se música. As populares canções decoram o som. E domingo, o folclore com o Grupo “Identidade Lusa” e outros que vieram daqui e dali, arrebataram o público, em danças e em cantorias. É festa…é festa.

Dizem os membros da Comissão – e não é só os desta festa, a daqui destes lados de Aveiro – que não pode celebrizar-se S. João sem fogo, o do foguetório. “O povo gosta disso, o povo quer ouvir os foguetes” – defende, em discurso para mim, um vizinho que alinha na pandega.

Nem digo nada. Caso contrário era descomungado por ele e por quase todos.

Se fossem foguetes mansos, ou seja, de barulho pouco ensurdecedor ou dos que se elevam nos ares para dar colorido à festa, ainda vai que não vai.

Agora estes. Estrondosos. Barulhentos. Bombardeiros. Irritantes. Incomodativos. E manifestamente provocadores dos decibéis…

Na manhã, a de domingo, 24, a do Dia de S. João, foi fogo, e do bravo, em barulho e estremeções, durante mais ou menos 25 minutos. A trovoada foguetória intimidou os mais calmos, os assustadiços e os animais domésticos. Nem se ouviram os sinos do chamamento para a missa dominical. Ficaram abafados pelos foguetes. Nem respeito pela Santa Madre Igreja e pelo toque a avisar da Celebração da Palavra…

Devia de haver contenção na poluição sonora. E, já agora, no desperdício financeiro para este tipo de gasto, onde se queimam, em segundos, dezenas de euros. O silêncio despegou-se desta aldeia. Que S. João me perdoe: mas amanhã já não aturo os que, em nome dele, o querem recordar com foguetes de arrasar.

Para mim: raios partam os foguetes e o incómodo que me(nos) causam em termos de inquietação da nossa quietude diária.

 

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