Coimbra  20 de Setembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

As eleições autárquicas e a Saúde em Coimbra

14 de Setembro 2021

Coimbra é uma velha cidade universitária, conhecida em todo o mundo como tal. A sua relevância em Portugal deriva do Ensino e da Saúde, esta muito relacionada com aquele, seja pré, seja pós-graduado e de especialização. Ambos, Ensino e Saúde, atraem muita gente a Coimbra, quer transitoriamente, como alunos e doentes, quer de modo definitivo, como profissionais, ficando cá a viver e trabalhar nessas áreas. E é lógico que seja neles que se procure antes de mais o desenvolvimento da cidade, embora ele também se possa processar, naturalmente, noutros aspectos. Mas como poderá alguém aceitar que a Saúde regrida, com encerramento dum grande Hospital público, e com ela forçosamente o Ensino nessa área, com a saída da cidade de muitos profissionais jovens e altamente diferenciados, e muito menor afluxo de utentes? E poderá alguém responsável pensar que essa redução no Ensino e na Saúde possa ser compensada, até em população da cidade, pela instalação de fábricas de bolachas ou de telhas, ou abertura de lojas de carpintaria pré-fabricada?!

Com certeza que o comércio e a indústria são fundamentais e devem ser estimulados e protegidos, em qualquer cidade. Mas numa cidade centrada no Ensino e na Saúde, eles deverão andar mais à volta dessas áreas, como sucede em Cambridge, cidade universitária de renome mundial, da mesma dimensão que Coimbra embora um pouco mais pequena, com uma Universidade ainda mais antiga que a nossa, e onde a indústria existente acompanha a actividade da cidade na Saúde e no Ensino. Como em Coimbra, afinal, com a fábrica da Bayer, depois substituída pela portuguesa Bluepharma, que cresce a olhos vistos de paredes meias com o polo de saúde do Hospital dos Covões, a Olympus, no iParque, ou a Critical Software, e várias outras empresas ligadas aos hospitais e à universidade. Ou a UC Biomed, para estudo multidisciplinar do envelhecimento, com a construção anunciada de mais um edifício junto ao HUC.

O futuro da Saúde em Coimbra faz parte integrante e indissociável do futuro da cidade. Por isso, neste momento crucial, em que se escolhe quem vai gerir a cidade nos próximos anos, é fundamental saber o que cada um dos candidatos pensa na matéria. E, embora sejam muitos, não é difícil, porque tudo se resume a duas opções globais. Dos concorrentes mais viáveis, todos tomaram uma delas: uns uma, outros, agrupados embora num conjunto heterogéneo onde têm de fazer cedências uns aos outros, outra. Vejamos.

De 1973 a 2012, durante 40 anos, Coimbra teve dois Hospitais Gerais Centrais, os da Região Centro, trabalhando a par, sempre cheios, colaborando quando necessário, na assistência, no ensino e na investigação, num período em que Coimbra foi uma capital da saúde, referência nacional, chamando a si profissionais e doentes. Foi depois decretada, por razões políticas e sem qualquer estudo ou avaliação, uma fusão desses hospitais e, actualmente, Coimbra tem apenas um Hospital Geral Central, o HUC, nas mesmas instalações que tinha, assoberbado com trabalho e com doentes, com listas de espera enormes, bloqueado no trânsito no meio da cidade, com acesso e estacionamento difíceis. O outro Hospital, o dos Covões, que desempenhou ainda há um ano um papel fulcral notável no combate à pandemia de covid-19, está quase desmantelado, reduzido a um mínimo, servindo apenas de apoio ocasional ao outro. Como a Região Centro, com a sua população de mais de dois milhões de habitantes, necessita de, pelo menos, dois Hospitais Gerais Centrais, o segundo, se não for em Coimbra, terá de ser noutra cidade da Região.

Nova Maternidade

Por outro lado, pretende-se construir em Coimbra uma nova Maternidade, que substitua as duas que continuam a existir, uma ligada ao HUC, outra que o estava ao Hospital dos Covões. O problema que permanece é onde construir essa Maternidade.

Vejamos, portanto, as duas opções em confronto para a Saúde em Coimbra.

Numa, entende-se que o HUC não tem capacidade funcional nem espaço para lhe construírem em cima uma Maternidade, a qual, a fazer-se, teria de ser, necessária e irremediavelmente, de dimensões muito reduzidas, sem, por isso, capacidade para substituir cabalmente o que as duas agora fazem, sendo que já neste momento o Serviço de Ginecologia está ultrapassado no seu funcionamento, havendo, até, necessidade de consultas com duas doentes por gabinete! Assim sendo, nesta opção defende-se a construção da Maternidade junto ao Hospital dos Covões, no polo de saúde na margem esquerda, na periferia da cidade (que é por onde as cidades crescem, não pelo centro), com a Escola Superior de Enfermagem, a Escola Superior de Tecnologia de Saúde, o Centro de Sangue e da Transplantação de Coimbra, o Centro de Estudo do Sono, o Centro de Saúde de S. Martinho, e com a Bluepharma em contiguidade com esse complexo sanitário. Onde há o espaço necessário para a dimensão requerida, boa acessibilidade, quer de dentro quer de fora da cidade, estacionamento fácil, proximidade a um Hospital Geral Central. Para isto, obviamente, nesta opção defende-se também a manutenção do Hospital dos Covões como Hospital Geral Central, com as valências necessárias para essa função (e para as quais tem as instalações requeridas, algumas construídas de raiz há poucos anos), que lhe permita trabalhar de novo a par do outro, aliviando-lhe o trabalho assistencial, de investigação e de ensino, e dando à medicina e à assistência clínica pública em Coimbra e na Região Centro uma diversidade que lhes é fundamental para melhorar os resultados. Com esta opção, o SNS em Coimbra iria recuperar muitos dos profissionais que foi perdendo nos últimos anos, bem com atrair de novo os doentes que se foram afastando por falta de reposta atempada.

A outra opção apoia e defende a construção da nova Maternidade no HUC, mais precisamente sobre o HUC, acumulando ainda mais utentes e profissionais nesse espaço já saturado, com ainda maior dificuldade de acesso rodoviário e de estacionamento (razão que tem feito o actual executivo camarário não autorizar essa construção). E apoia também o desaparecimento do Hospital dos Covões como Hospital Geral Central, ficando em definitivo apenas o HUC (como antes de 1973). Como já se percebeu que o HUC, sozinho, não se basta a si próprio nesse papel, ficariam algumas funções suplementares no edifício dos Covões, projectando-se para o restante outras funções ainda não definidas, nomeadamente de hospital geriátrico (agora que se vai construir mais um edifício em Celas, junto ao HUC, para investigação do envelhecimento…), eventualmente com lar de idosos acoplado, ou qualquer outra coisa que justifique o abandono dum edifício que há pouco tempo era um hospital geral perfeitamente equipado para todas as valências correspondentes.

E são estas as duas opções na Saúde em confronto nestas eleições. Fulcrais para o futuro de Coimbra como referência na Saúde e no Ensino, na Região Centro e no País. E é fulcral que sejam conhecidas e avaliadas por quem vai votar. Porque irá necessariamente ter de votar numa delas… Que depois não se diga que não se sabia.

(*) Médico cirurgião e professor universitário