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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

As comemorações do Foral de Botão: o desrespeito vertido em livro

29 de Janeiro 2017

Botao Foral

 

Chegou-me às mãos um exemplar do livro «Carta de Foral da Vila de Botão», edição da União de Freguesias de Botão e Souselas, tendo como autores António José Ferreira Quinteira e Catarina Gisela Figueiredo Quinteira, apresentado publicamente em Novembro de 2016 como encerramento das comemorações manuelinas de Botão, iniciadas em 2014.

Como estudioso da área das freguesias desde 2001, com raízes familiares e trabalho publicado sobre as freguesias de Botão (2002) e Souselas (2013), não posso deixar de reagir a sucessivas usurpações culturais de que tal livro terá sido, provavelmente, a última!

Para quem acompanhou, proximamente, estas comemorações sabe que fui o mentor das mesmas, conferindo-lhe uma expressão que não tinham, de que destaco: realização da Feira Antiga de Botão, geminação entre as freguesias de Botão e Cernache, recriação da entrega do foral e edição de um fac-simile do Foral Manuelino de Botão.

Os representantes das principais colectividades da freguesia podem bem atestar o que digo, pois marcaram presença nas reuniões prévias em que se discutiram estes e outros assuntos, numa altura em que reinava a paz no seio da UF Souselas e Botão.

Estive ao lado do actual executivo nas três primeiras realizações e dei a cara por elas. Estávamos em 2014 e o ambiente era cordial e de cooperação. Contudo, por motivos que roçam a ordinarice e desrespeito pessoal e profissional afastei-me dos elementos que hoje compõem a junta que dirige a união de freguesias. O tempo tem-me dado razão e, aos poucos, as máscaras têm caído.

A simples edição da obra demonstra, desde logo, a falta de carácter da liderança local: em Setembro de 2016, o Sr. Presidente da UFSB abordava-me, à saída de uma reunião realizada na Igreja de Botão, para me informar que iria enviar para o meu mail a adjudicação do livro. Estranhei, devo confessar, pela falta de diálogo já existente sobre esse e outros assuntos.

Mais valia estar caladinho e seguir o seu caminho! É que, conforme consta neste pequeno livro, a data do prefácio assinado pelos autores é a de 14 de Março de 2016 pelo que, quando conversámos sobre a hipotética adjudicação o Sr. Presidente da UFSB estava mais do que ciente da opção tomada. A esta actuação apelida o povo de «mentir com quantos dentes se tem» e que, no caso concreto, foi promovida a coberto de uma coligação e de uma tripeça local que dá pelo nome de: varredoura da cultura, Miguelinho e low-profile. Mas qual a necessidade destes comportamentos, desta falta de frontalidade? Francamente, não sei.

Uma leitura atenta da obra revela falhas e gralhas variadas, possivelmente, justificadas pelo facto dos autores serem arqueólogos de formação e não dominarem alguns aspectos, ficando na dúvida se os autores têm noção da gravidade dos factos em que se meteram ou foram metidos:

– Do ponto de vista ético é, desde logo, questionável que os autores sejam pai e filha e que o prefácio (p.16) tenho sido escrito pelos próprios – não merecia o livro uma introdução por figura respeitável do meio universitário ou da cultura da região?

– Do ponto de vista da solidariedade entre o executivo, a obra é reveladora do estado da situação, particularmente, como o “Eu” se sobrepõe ao desejado “Nós”. Basta ler a Nota Explicativa (p. 12), assinada pelo presidente da UFSB: «Julgo, deste modo, e com este meu acto, ter contribuído para a divulgação do nosso património histórico e sua reflexão». Quererá isto significar que os outros elementos do executivo não foram ouvidos? Que se tratou de uma imposição do tipo «calar e comer»?. Já não digo nada…

– Ficam, também, por explicar algumas questões, designadamente, a observação que os autores fazem na p. 18 e na qual afirmam «não foi possível fazer a edição fac-similada da carta de foral». Mas não foi porquê? Falta de dinheiro, de tempo, de vontade, de impreparação dos autores ou…porque era uma ideia do João Pinho? Fica a dúvida.

– O livro consubstancia, por outro lado, a opção técnico-cientifica questionável, de fazer o dois em um: a transcrição paleográfica, por um lado, e uma edição que designam como interpretativa, por outro, na qual procuram actualizar termos e grafia para que o povo, que designam como «leitor não especializado» (p. 18), perceba o que se escreveu no tempo de D. Manuel I. Diria que é uma forma original de fazer a distinção entre cultos e incultos, encaixando os autores da obra, obviamente, no grupo dos primeiros.

Não se percebe pois como se transformou uma ideia inicial, privisivelmente, de grande qualidade técnica e gráfica, à altura do passado histórico da antiga Vila de Botão num mero livro interpretativo, com gralhas na transcrição paleográfica e sem a reprodução, na íntegra, do exemplar do Foral Manuelino concedido ao Concelho de Botão, que se encontra à guarda do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra – o qual, na minha opinião, tem superior valor histórico ao exemplar utilizado, pelo facto de nele se inscreverem as assinaturas dos antigos oficiais e povo do Concelho de Botão, registo de correições e outros pormenores que fariam toda a diferença!

No fundo, perdeu-se uma oportunidade, um desejo antigo que chegou a ser discutido em 2004/2005 entre a Junta de Freguesia de Botão e o Centro Social e Recreativo e que consistia em disponibilizar a toda a comunidade uma cópia do antigo foral manuelino de Botão.

Quanto ao meu trabalho, designadamente, a Monografia de Botão (2002) onde se aborda, também, o Foral Manuelino, merece uma simples observação nas páginas 45 e 30, enfiado à força, quiçá para amenizar os danos previsiveis aparecendo, também, na Bibliografia. Que subida honra me guardaram! Não esquecerei essa atenção. Prometo.

(*) Historiador e investigador