Coimbra  10 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Luís Parreirão

António Almeida Santos – a falta que nos faz

22 de Janeiro 2021

Almeida Santos, falecido há cinco anos, era dotado de corajosa inteligência e da força lúcida das suas convicções.

Em plena campanha para as eleições presidenciais de 2016, fomos invadidos pela inesperada notícia da passagem à eternidade de António Almeida Santos. Cinco anos depois, de novo em plena campanha eleitoral, impõe-se-me recordá-lo e a falta que nos faz.

Lino Vinhal, director do “Campeão”, definiu o extinto como “um dos pilares da cultura de Coimbra”.

Escreveu José Joaquim Gomes Canotilho, na apresentação do livro de Almeida Santos, “Quase memórias”, 1º. volume, e a propósito da obra, que “ele [o livro] é a História política de Portugal no último século”. Que o mesmo é dizer: o seu autor viveu a História política de Portugal durante a sua longa vida. Viveu-a não como espectador, mas, antes, como protagonista empenhado. Da oposição estudantil coimbrã ao exílio interno em Moçambique, da lúcida ousadia prospectiva na relação com os movimentos de libertação ao assumir de responsabilidades no início fundador da nossa democracia, de construtor único do edifício legislativo do nosso Estado de Direito democrático à presidência do Parlamento português.

Homem livre, e de bons costumes, que por mais de meio século foi um farol democrático e fraterno na longa e sinuosa estrada que Portugal foi percorrendo para alcançar a liberdade e para afirmar a dignidade da pessoa humana.

Hoje em dia, quando a extrema-Direita parece querer intimidar-nos e a Esquerda democrática não comparece, sentimos mais a falta de Almeida Santos – do seu génio, da sua corajosa inteligência e, sobretudo, da força lúcida das suas convicções.

A Esquerda democrática, e em particular o Partido Socialista, tiveram, nos anos 20 do século passado, uma década de ouro com o nascimento, em 1923, de Francisco Salgado Zenha, em 1924, de Mário Soares e, em 1926, de António de Almeida Santos.

Cada um, a seu modo, foi determinante para vivermos, hoje, num Portugal democrático, livre, sem equívocos ideológicos, numa democracia representativa plena e com um modelo económico europeu.

Cada um, a seu modo, e os três, pelo que representam, convocam a nossa memória de cidadãos livres para não deixar passar em claro o centenário dos seus nascimentos, efemérides que ocorrerão ao longo da presente década. E convocam especialmente o Partido Socialista!

Ao longo de décadas, todos eles não deixaram de apoiar e marcar presença junto de todos quantos, nas mais diversas circunstâncias, se bateram pelos seus valores e princípios.

Porque a vida também é feita de emoções, recordo sempre, com emoção, o dia 9 de Outubro de 1993 (dia do meu aniversário). Estava, naquele momento, empenhado, em nome do PS, num combate político muito difícil. Os meus camaradas entenderam marcar para esse dia um almoço de campanha.

E foi com uma enorme e boa surpresa que vejo entrar na sala o dr. Almeida Santos, acompanhado pelo Fausto Correia, a cantar-me os parabéns, para, depois, se juntar a nós no almoço.

Esta proximidade, esta simplicidade, esta capacidade de se dar são únicas e devem ser recordadas para servir de exemplo.

Almeida Santos teve, ainda, a grandeza de registar, em elegante e erudita escrita, o seu pensamento. Pensamento que, para terminar, se cita.

Na introdução ao seu livro “Nova Galeria de Quase Retratos” escreve: “E no elenco de Personalidades, cujo exemplo agora me tentou, incluí Nelson Mandela, Afonso Costa, Cunha Leal, Mouzinho da Silveira, Miguel Torga, Fernando Valle, Sottomayor Cardia e Alexandre José Linhares Furtado; tudo gente exemplar – que, pela sua inteligência, a sua verticalidade, o seu carácter, a sua dedicação ao semelhante, e, uns mais do que outros, o seu papel profissional, cívico e político – contribuiu para tornar o mundo mais belo e melhor”.

Também António Almeida Santos contribuiu para tornar o mundo melhor e mais belo – não o esquecer é um imperativo político, ético e de cidadania.

(*) Militante do PS