Coimbra  14 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João António Sousa Jordão

Antevisão do que ainda resta do Centro Hospitalar de Coimbra

6 de Agosto 2019

Hospital dos Covões

 

Perante os últimos acontecimentos da “morte lenta” do Centro Hospitalar de Coimbra, levada a efeito encapotadamente pelo Conselho de Administração dos HUC-CHUC, relembro a minha intervenção, há cerca de um ano, na Ordem dos Médicos.

Como membro de um grupo de médicos e de outros profissionais de saúde que integram, com outros cidadãos, o movimento cívico para a implementação da nova Maternidade na área dos Covões, tenho o maior prazer em participar neste debate.

Em 40 anos de actividade profissional tive oportunidade de viver intensamente o Centro Hospitalar de Coimbra, os seus êxitos, as suas dificuldades, numa luta diária, nem sempre fácil, tornando-se um polo de saúde de referência em Coimbra e de toda a região.

O Hospital Geral, mais conhecido por Hospital dos Covões, foi crescendo, foi-se diferenciando na qualidade dos Serviços e de um modo muito particular no Humanismo prestado e sentido pelos seus utentes com a dedicação permanente dos seus profissionais.

Integrada a Maternidade Bissaya Barreto neste Centro Hospitalar, como sua primeira Obra Assistencial, foi o Hospital Geral sempre o seu apoio em todas as valências necessárias para tal e totalmente a contento.

A Maternidade BB atingiu, no âmbito da assistência às mães e recém-nascidos, uma qualidade e diferenciação que a tornou polo de referencia obstétrica e da neonatalogia a nível regional, nacional e internacional, tendo sido unidade inovadora em algumas áreas desta especialidade.

A necessidade de aglomerar as duas maternidades em uma só é indiscutível e urgente pelos motivos de todos conhecidos, nomeadamente pela degradação das suas instalações.

Já vi este filme

Levanta-se, no entanto, nova turbulência, agora motivada pela sua localização. Já vi este filme há anos atrás, aquando da localização do Hospital Pediátrico, tendo à data participado nessa discussão em que o bom senso foi preterido por interesses que quero desconhecer.

Para defender a localização da nova Maternidade no Polo de Saúde dos Covões não me vou perder em questões técnicas e de bom senso, nem contrapor as minhas opiniões às varias hipóteses de localização no perímetro dos HUC, de mais provado como a pior opção. Algumas delas são mesmo completamente inaceitáveis e tecnicamente absurdas. Gostaria de as discutir ponto por ponto, mas outros já o fizeram em órgãos da comunicação social, nas redes sociais, nas assembleias Municipais e de Freguesia, bem como nos manifestos dos vários movimentos que nasceram a propósito da localização.

A experiência ensinou-me que esses relatórios – e refiro-me também ao relatório «estudo do projecto de criação de uma maternidade no CHUC de 2017» – valem o que valem e servem os interesses de quem os encomenda.

O âmago do assunto é mais profundo e histórico, merecendo não ser escamoteado.

O Polo de Saúde dos Covões (integrado pela Escola Superior de Enfermagem, Escola Superior de Tecnologias da Saúde, Instituto do Sangue, Centro de Saúde de Martinho Bispo, Centro de Implantes Cocleares, Centro do Sono e, ainda, pelo Hospital Geral), foi sempre uma pedra no sapato para alguns elementos ligados à saúde e alguns políticos responsáveis pela saúde em Coimbra, sem visão, que continuam, ainda e agora, a deixar Coimbra e as suas Unidades de Saúde perder as referências de que todos nos orgulhávamos e que fizeram em tempos a nossa Cidade merecer o título de Capital da Saúde.

O objectivo estratégico implementado pelos últimos CA do CHUC e da ARS visa a aniquilação total do Hospital Geral esvaziando-o dos seus recursos humanos. Encapotado esse objectivo em benefícios economicistas, que não se vieram a concretizar, levou a uma produtividade que diminuiu substancialmente, com significativa e preocupante incapacidade de resposta, numa tentativa de amputação e expoliação das suas valências e dos seus equipamentos.

Encontra-se, no entanto, o Hospital Geral e o seu «Campus» envolvente pronto para acolher com todas as vantagens para Coimbra e para a região este novo desafio que é localizar a futura Maternidade neste Polo de Saúde.

A localização da nova Maternidade na área dos Covões é para esses Senhores uma NUVEM NEGRA que pode pôr em risco o seu plano estratégico de completo encerramento médico-cirúrgico desta Unidade de Saúde. Apesar de tudo, a localização da Maternidade na área que defendemos pode, por enquanto e ainda, contar com as existentes valências necessárias ao apoio de uma Maternidade, isto e se entretanto essas valências não forem retiradas a curto prazo dos Covões, o que me parece estar a acontecer estrategicamente.

POR ISSO QUERO AQUI DEIXAR UM GRANDE ALERTA.

Apelo aos órgãos competentes para o bom-senso e uma visão realista dos problemas actuais da política de Saúde para Coimbra, que atingiu desde a chamada FUSÃO um estado degradante, que levou à desmotivação dos profissionais, ao caos das Urgências, à degradação da maior parte dos Serviços, à fuga de médicos e enfermeiros para outras unidades hospitalares, o que se traduz por uma diminuição da resposta e da sua qualidade, de que são as principais vítimas aqueles a quem temos obrigação de servir, isto é, os nossos doentes.

(*) Médico Chefe de Serviço de Anestesiologia do CHC (aposentado), ex-Director Clínico do CHC e ex-Presidente do Conselho Directivo do Hospital dos Covões

 

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