Coimbra  25 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Luís Santos

Ângulo Inverso: Despovoamento e viver bem

17 de Setembro 2021

Perder população tem sido visto como um aspecto negativo e prejudicial, com territórios a ficarem praticamente desertos.

Os dados preliminares dos Censos deste ano revelaram que, na última década, 257 dos 308 municípios perderam população e que só em duas regiões vivem mais pessoas do que há 10 anos (Algarve e Área Metropolitana de Lisboa). Portugal tem agora 10.347.892 residentes, menos 214.286 do que em 2011, uma descida que, em termos de Censos, só tinha acontecido entre 1960 e 1970.

Uma perspectiva contrária ao negativismo é apresentada por vários geógrafos, ouvidos pela agência Lusa, ao declararem que num município é preciso pensar no bem-estar dos que vivem nas zonas despovoadas.

Para Álvaro Domingues, doutorado em Geografia Humana e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, “o que interessa é o que está lá hoje, quais são as condições de vida hoje, quem são as populações fragilizadas. É aí que as políticas públicas se devem prioritariamente focar. O que me interessa é que se viva bem”.

Álvaro Domingues dá como exemplo a forma como a covid-19 “demonstrou a desumanidade dos lares” para defender que “é preciso reflectir sobre o papel do Estado” e “reinventar o Estado social a nível municipal ou intermunicipal”, após um ciclo de grande investimento público que se seguiu à entrada na União Europeia e se traduziu na modernização do território com fundos comunitários.

“Algo me diz que, contrariamente à solução genérica do ‘faça-se isto para todas as situações’, o segredo está numa estratégia focada em saber-se quem é que são os que aqui estão, quais são as novidades que deram certo aqui, nesta terra”, afirma.

Para o geógrafo, as áreas rurais de um município vão, genericamente, continuar a perder população e tem é de se garantir qualidade de vida a quem lá vive, sendo que “outra questão é quando a sede de concelho tem menos população, menos emprego e a população que tem, além de menos, é mais envelhecida. Isso é que é dramático, é que é a luz vermelha” conclui.