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Semanário no Papel - Diário Online

 

Luís Santos

Ângulo Inverso: Como é a mentalidade portuguesa

4 de Dezembro 2020

Cada um na sua área, Amália e Eusébio são dois ícones da nação portuguesa. Ela a rainha do fado, ele o génio do futebol português. Agora, o país perdeu um dos maiores pensadores e intelectuais mais proeminentes da cultura e da política contemporânea portuguesa e europeia.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, Eduardo Lourenço fez um caminho ímpar e deixou-nos um legado que está e continuará actual.

Muito para além da “espuma” dos acontecimentos, que os políticos tão apreciam e comentam no imediato, o pensamento de Eduardo Lourenço vai à raiz, cresce e mantém-se vivo. Eis alguns exemplos extraídos de “O Labirinto da Saudade” (1978):

Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça «morte de trabalho» dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação”.

Os Portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe…”.

Costuma dizer-se que Portugal é um país tradicionalista. Nada mais falso. A continuidade opera-se ou salvaguarda-se pela inércia ou instinto de conservação social, entre nós como em toda a parte, mas a tradição não é essa continuidade, é a assumpção inovadora do adquirido, o diálogo ou combate no interior dos seus muros, sobretudo uma filiação interior criadora, fenómeno entre todos raro e insólito na cultura portuguesa”.

A sociedade portuguesa não é a única que vive sob o modo de uma quase total exterioridade e em obediência ao pendor irresistível de ocupar nela o lugar que implica o mínimo de resistência e o máximo de promoção social segundo a norma do parecer, mas é certamente uma das mais perfeitas no género”.