Coimbra  17 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Lino Vinhal

Ângulo Inverso: A quem convém a abstenção?

10 de Outubro 2019

Uma das coisas menos simpáticas nos actos eleitorais de há uma décadas para cá é o nível de abstenção. Tão mau quanto isso é não nos sentirmos incomodados com essa realidade com a qual lidamos com a maior das naturalidades. Neste domínio a realidade é esta: metade não vai votar; à outra metade isso é-lhe indiferente. Parece-nos que ambas as metades têm um déficie de democraticidade sobre o qual importaria reflectir um pouco, a nosso ver.

Temos sérias dúvidas que os cadernos eleitorais sejam rigorosos e estejam actualizados em cada acto eleitoral. Mas isso não altera a substância das coisas que passa pela análise das razões que levam as pessoas a afastar-se da fonte donde jorram as primeiras águas do sistema democrático. Se reduzir a nossa participação cívica ao voto de quando em quando é manifestamente insuficiente e pouco mobilizador, abdicar disso é colocar-se fora do sistema. Por muitas razões que possa haver aos olhos de cada um para não participar nas eleições, ir por aí não resolve coisa nenhuma, antes a agrava. Daí que preferíssemos uma sensibilização permanente do povo eleitor para nele incutir o sentido desse dever, assumindo-o como uma postura cultural inerente à condição de cidadão. Não é bem ao voto obrigatório que queremos chegar. Mas se o processo educativo é um assumir de normas morais, éticas, cívicas e até jurídicas, porque não ensinar nas escolas, instituições, na convivência do dia a dia, que votar faz parte desse conjunto de deveres que emanam da nossa condição de cidadãos?

Não vale a pena esconder, nem calar, que muita dessa desmotivação em participar no acto eleitoral se deve à forma como se faz política em Portugal. Em alguns domínios e em algumas casas partidárias, os exemplos que chegam cá fora não são nada gratificantes e descredibilizam o sistema. Compreende-se que haja quem se sinta pouco disponível para participar em actos, decisões, atitudes e comportamentos de moralidade duvidosa. Passaria por aqui, também por aqui, corrigir o sistema, sabendo embora que nem todos estão interessados nessa correcção. Os partidos políticos esquecem-se da formação política dos seus militantes e tem vindo a deixar-se transformar, em alguns casos, em autênticas agências de arranjos e arranjinhos que desacreditam o sistema. Os jobs para os boys é uma expressão que a sociedade assumiu como a que melhor retrata uma certa forma de fazer política. Quem a criou sabe o que dizia e todos nós sabemos que essa prática se instalou entre nós e é olhada hoje como a coisa mais natural do mundo. Esta e outras opções de idêntica natureza, quando não pior, criam ferrugem no sistema e acabarão por feri-lo de morte. Olhem para a história.

 

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