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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Alcafache: 32 anos depois

14 de Setembro 2017

Pelas 18h37 do dia 11 de Setembro de 1985 ocorria o maior desastre ferroviário nacional, na linha da Beira Alta, junto ao apeadeiro de Moimenta-Alcafache, freguesia de Moimenta de Maceira do Dão.

O acidente, um choque frontal a aproximadamente 100 quilómetros por hora, envolveu duas composições de passageiros: uma efectuando o serviço internacional entre o Porto e Paris, que circulava com 18 minutos de atraso, a outra realizando um serviço de natureza regional na direcção de Coimbra. Seguiam a bordo dos referidos comboios 460 passageiros.

O acidente provocou vários incêndios que alastraram à floresta tendo perecido oficialmente 49 pessoas, das quais apenas se identificaram 14, continuando desaparecidos 64 passageiros, o que evidencia a violência da catástrofe. A maior parte dos restos mortais não identificados foram sepultados numa vala comum junto ao local do desastre, onde também se ergueu um monumento.

Para as forças de socorro e salvamento envolvidas, bem como para as diversas autoridades solicitadas, o desastre de Alcafache permanece como inesquecível e até inenarrável, constituindo, apesar de tudo, uma experiência de aprendizagem.

A investigação posteriormente realizada apontou para graves falhas de segurança: concluiu que os chefes das estações não comunicaram entre si, e ao posto de comando de Coimbra, como estava regulamentado, a alteração do local de cruzamento de Mangualde para Nelas. Por outro lado, devido à falta de um equipamento próprio, revelou-se impossível comunicar com os comboios envolvidos. Assim, a única forma de avisar os condutores era através da sinalização e da instalação de petardos na via, o que, no caso, não se revelou suficiente.

O acidente foi uma enorme lição para todos e levou à instalação de sistemas mais avançados de segurança, sinalização e controlo de tráfego, como o controlo de velocidade. Por outro lado, a introdução de sistemas de rádio-solo permitiu uma comunicação directa entre os maquinistas e as centrais de controlo, e foi proibida a utilização de materiais que facilitassem a propagação de chamas nos comboios.

Um pouco à semelhança da tragédia tão presente de Pedrógão, que se adivinhava pelo abandono da floresta e ineficácia das políticas de gestão, também o desastre de Alcafache foi-se adivinhando pela ineficácia dos sistemas de segurança. Basta recordar, por exemplo, o acidente de 14/12/1975, ocorrido 10 anos antes, na mesma linha da Beira Alta, mas na estação de Fornos de Algodres, onde pereceram oito pessoas e dezenas ficaram feridas, na sequência do choque frontal entre um comboio cheio de emigrantes, proveniente de Hendaya, que vinham passar a quadra festiva, e o Sud-Express que de Lisboa seguia para Paris.

A reportagem sobre o assunto, que o “Diário de Coimbra” publicava no dia 16, anunciava já o erro de agulhas como estando na génese do acidente. Mas esse texto, premonitório e histórico, denunciava corajosamente que a CP queria desde logo responsabilizar os mortos, nomeadamente o maquinista do Sud-Express sem primeiro se apurarem de forma oficial as causas do sinistro.

Será isto que nos espera da tragédia de Pedrógão. Os mortos é que tiveram a culpa?

(*) Historiador e investigador

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