Coimbra  25 de Maio de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Ainda o 25 de Novembro de 1975…

17 de Janeiro 2020

A redacção desta terceira crónica, não prevista, justifica-se pelos comentários entretanto publicados por uma testemunha factual – a militante socialista Rosa Dias – e por sugestão do próprio semanário “Campeão das Províncias”, que me estimulou a divulgar factos que a memória colectiva deverá reter.

Volto a lembrar que, nas vésperas do 25 de Novembro, reinava enorme desassossego no PS de Coimbra, com grupelhos radicais a promoverem arruaças frente à sede. Enquanto isso, também alguns socialistas mais destacados sofriam intimidações. Certa tarde, eu próprio escorracei um bando emboscado junto à residência do saudoso António Portugal. Gente corajosa e da mais fina inteligência e carácter, que poucos anos depois até se asilou no PS, onde alguns ainda hoje fazem “história” e nos dão lições de moral. Adiante…

Na sequência desse grave incidente, nessa mesma noite desloquei-me com António Portugal ao QG, onde fomos recebidos pelo oficial de dia, ao caso o Alferes V, militante comunista. Com este “herói” suportado em cinco ou seis soldados de metralhadora apontada e desenculatrada, e como se de um pelotão de fuzilamento se tratasse, ambos permanecemos encostados à parede, à entrada do quartel, enquanto eu reagia verbalmente, incontinente na exibição dos meus créditos.

Entre outras páginas inesquecíveis, será ainda de destacar as célebres “excursões” ao Trevim, onde Luís Santarino e outros militantes socialistas, armados com a pistola do Prof. Fernandes Martins, iam trocar a orientação da antena da RR, de Sul para Norte: é que os estúdios de Lisboa emitiam sob o domínio de grupos radicais que apelavam à subversão, enquanto os do Porto eram controlados por Pires Veloso.

Na tarde do dia 25 de Novembro, perante a indecisão que nos era soprada por militares de Coimbra que, em segredo, apoiavam as forças democráticas – e em face da reacção que, dias antes, eu próprio e António Portugal havíamos enfrentado – um grupo de mulheres socialistas decidiu avançar para o QG a exigir uma clarificação do comandante. Integraram essa comitiva Teresa Portugal, Rosa Dias, Margarida Ramos de Carvalho, Isabel Maria (?) Videira Murta e Fernanda Mota Pinto. A presença desta última pode parecer surpreendente mas, falhos de segurança, cerca de uma dezena de militantes do PSD haviam abandonado a sua sede do Calhabé, para se integrarem nas fileiras socialistas.

E foi perante esse “ataque feminino” que o Charais havia de meter os pés pelas mãos, sem sequer se dignando a receber a delegação. Antes optaria por uma arrastada parlamentação, recorrendo a um oficial que Rosa Dias aponta como sendo natural da Pocariça/Cantanhede, mas que talvez esteja a confundir com o célebre Capitão Pereirinha, da vizinha Varziela. Este militar era sobejamente conhecido pela sua participação no falhado golpe de 16 de Março, das Caldas, e também pelos seus excessos na “Campanha de Dinamização do MFA”, onde se destacava a incendiar populações tranquilas. Ademais, era ainda apontado como o principal responsável pela prisão de altos dignitários do regime fascista, em Cantanhede, que desse modo passaram a gozar do estatuto de heróis e mártires.

Tal como escreveu Rosa Dias, confirmo que foi na sequência desse insólito impasse de Charais que resolvemos tomar a Emissora Nacional, que transmitia a partir de Coimbra. Evitando qualquer protagonismo, escrevi no meu primeiro texto que, com Pinho Simões de serviço, o assalto não teve história. Talvez tenha sido um excesso de modéstia porque, quando lá chegámos, já “guardava” o recinto o temido Capitão Pereirinha que, encostado por mim à parede, nem sequer ofereceu resistência quando lhe saquei o microfone das mãos para o entregar a Teresa Portugal.

E foi enquanto eu controlava a deserção dos militares presentes, que sensatamente nunca ousaram arriscar a sua integridade física, que Teresa Portugal me devolveu o micro e me incentivou a fazer as honras da casa. Tal como Rosa Dias afirmou, alguns minutos depois, alertados pela vibrante mensagem que transmiti para todo o país, e em que apelei à mobilização popular, já Coimbra se enchia de manifestantes que acorriam a resgatar o 25 de Abril e a salvar a democracia em risco.

 

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