Coimbra  13 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Ainda há paraquedistas?

12 de Fevereiro 2021

Médico e deputado do PS na AM de Coimbra

 

Os paraquedistas, em política, são figuras de ópera ou opereta, que se fazem deslocar para candidaturas em territórios os quais muitas vezes só viram no mapa, ou denegriram nos salões reluzentes, nas festas de jet set em decadência, nos restaurantes de preços obscenos ou nos algarves da noite aquém-mar.

Apregoam o supremo sacrifício de abandono de bem-estar (a bem da populaça), o elevado prejuízo material que a agitada vida profissional sofre (as clientelas não têm poder de compra), e o tempo perdido nas relações humanas e correspondente afetividade que a ausência dos seus locais de culto ocasiona (mitigada por novos bajuladores e dependentes).

Chegam com auréola de vencedores, espada em riste de D. Sebastião ou Joana d`Arc, reduzindo à sua insignificância os plebeus e aldeães em atitude paganal, arregimentando (alguns) jotas com pragmatismo e sem perfil de convicções ideológicas, e ocupando a província se vencedores ou regressando ao seu castelo e arcas encoiradas se perdedores.

Em abono da verdade, também há quem siga o percurso a contrario sensu, partindo da aldeia abandonada, fazendo vida pela via latina e acabando a despejar a sua sapiência na ocupação de cargos e funções de nomeação pouco virtuosa, em rotação sempre pelos mesmos.

Candidatam-se depois a deputado da Nação pelo círculo eleitoral de origem (que passa a fim de semana ou nem isso), arrastando-se pela capital do império perorando em S.Bento, quiçá ministrando na Ajuda, (alguns) esquecendo as suas origens e os eleitores que nele/a acreditaram e confiaram o seu voto para resolver os seus problemas (seus, deles ou delas cidadãos/ãs, e não dos próprios).

Restam os agentes políticos que se identificam com a sua terra, que se revêm na água das fontes sem sombra de pecado, que reduzem a fiscalidade que atrafega a classe média, que se preocupam com a falta de habitação condigna dos desfavorecidos, que se encantam com os jardins aprimorados e outros criados (que não são oásis de curta duração), que definem estratégias de desenvolvimento urbano e periurbano, que promovem a cidade que lhes deu vida, estilo de vida e até reconhecimento. Consta, via comunicação social, que Santana Lopes será candidato à presidência da Câmara Municipal de Coimbra. Será um erro que a direita poderá assumir, na sua ânsia do poder que lhe foge por entre os seus assanhados múltiplos candidatos e potenciais apêndices coligados (submissos perante duvidoso venerando).

A direita estará ressabiada por uma governação autárquica socialista empenhada, cidadã e coerente e que vilipendia (e alguma esquerda que reivindica castidade exclusiva), confundindo árvore e floresta, virtudes e máculas, carisma e características peculiares, personalização e bem comum.

Os cidadãos de Coimbra não acreditam em milagres de quem “vou ali e já venho”, não desesperam por um líder que sai de um partido de poder quando perde, cria um partido pessoal sem expressão ideológica, sai desse partido sem crédito nem prebendas, retoma o partido original sem virgindade nem vergonha, e ei-lo, sem tias nem aval, como paraquedista em queda livre e instinto de sobrevivência política.

Coimbra tem conhecimento de exatidão e magnificência, tem reconhecimento pelo mundo global, tem competências de eleição, tem massa crítica de construção, tem história grandiosa sem catilinária, tem futuro com mais geração e capacidade de realização. E pode devolver à procedência quem queira conquistá-la, como se não tivesse eira nem beira.
Coimbra (ainda) é Coimbra.