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Hernâni Caniço

Ainda há esquerda e direita

29 de Outubro 2021

Haverá esquerda e direita ou não, eis a questão, em tempos de modernidade, de elogio fácil do que é novo ou novidade, sem distinção de qualidade ou de experiência como valores cumulativos, desprezando conceitos, atraindo modas, perdendo princípios, gerando “novas” frases feitas relacionadas com jovens ou com ídolos, com pontapés na gramática ou ignorância histórica.

Norberto Bobbio, filósofo italiano, socialista liberal, respondia: “Sim. Não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise. De um lado estão aqueles que consideram que os homens são mais iguais que desiguais (esquerda). De outro, os que consideram que são mais desiguais que iguais (direita).”

Lapidar distinção, que sem grande ousadia traduzmos pela divisão entre progressistas e conservadores, mesmo no plano da diferencial atitude perante as alterações climáticas, os divergentes objectivos para a sociedade digital, as discrepantes noções de crise sócio-demográfica, e evidentemente, o combate ou a promoção das desigualdades.

De acordo com o The Concise Oxford Dictionary of Politics, nas democracias liberais, a direita política (que inclui conservadores, democratas-cristãos, liberais e nacionalistas), fazendo ainda por vezes acordos com a extrema-direita (que inclui nacional-socialistas e fascistas), opõe-se ao socialismo e social-democracia.

A unidade da direita é conseguida, com alguma facilidade e coesão, porque distinguem o essencial do secundário para si, o exercício do poder é apelativo porque defende os seus interesses, o desempenho na oposição visa sempre o retorno ao poder para voltar a defender interesses próprios, porque agrega quem tem repugnância pela política tradicional, mas não adere ao progresso, é conservadora, mas pragmática.

A unidade da esquerda dificilmente é consumada. Segundo P. Mujica, a esquerda divide-se por ideias, a direita une-se por interesses. É a teoria de dividir para reinar, em que se discute a política da relação, exigindo pureza e sendo preciosista. É dogmática, e fomenta a idolatria, por isso reage mal a novos paradigmas, o que é contraditório com as ideias progressistas que defende. Mujica justifica que a direita encontra nos interesses uma razão suficiente para se unir, enquanto a esquerda e o centro buscam na ideologia excelentes razões para se separar.

O Partido Socialista é o partido charneira da esquerda (não do centro), com uma matriz de esquerda (embora possa ganhar eleições ao centro, com a flutuação do eleitorado e a sua compreensão que a social-democracia não é matriz e práxis do PPD/PSD).

Segundo a Declaração de Princípios do PS, sucessivamente sufragada em Congresso, o partido defende a sociedade organizada na base dos valores da liberdade, da igualdade e da solidariedade, aberta à diversidade, à iniciativa, à inovação e ao progresso, comprometendo-se com a defesa e a promoção dos direitos humanos, a paz e o princípio da equidade na promoção da justiça social.

E acrescenta o combate às desigualdades e discriminações por critérios de nascimento, sexo, orientação sexual, origem racial, fortuna, religião ou convicções, predisposição genética ou outras que não resultem da iniciativa e mérito das pessoas, em condições de igualdade de direitos e oportunidades.

Transpor as concepções para actos também não é fácil, mas é determinante para o sucesso dos princípios, na sua aplicabilidade e usufruto dos cidadãos.

De igual modo, as outras forças de esquerda defendem idênticos valores, mas radicalizando as suas posições políticas, mostrando inflexibilidade perante consensos mais alargados a outras franjas da sociedade, ficando impassíveis à necessidade e conveniência da concertação social, ignorando o PIB e a dívida pública, assumindo como dogma a frase da indignação “há mais vida para além do défice”, e tomando a nuvem por Juno, como se os desejos fossem realidade absoluta.

Então, assim sendo, torna-se ímprobo haver uma união ou maioria de esquerda (ou uma “geringonça”) em Portugal, como solução contemporânea, que seria alternativa às coligações de direita (que não perfilho) e à maioria absoluta de um partido (situação com vantagens e inconvenientes).

Que solução (à esquerda)? Simplesmente (ma non troppo), a defesa do interesse público como prioridade, a união pela qualidade de vida para todos os cidadãos, o consenso sobre os desafios do desenvolvimento sustentável.

O pensador americano Mark Lilla, cientista político liberal, diz que “fazemos política com o país que temos, e não com o país que desejamos”. O escritor Eduardo Galeano, anticapitalista, dizia “eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade”.

Ainda há esquerda e direita, há desunião e união, há desafios comuns e interesses próprios, há um sistema financeiro e direitos do trabalho, há uma sociedade que importa preservar, desenvolver e inovar, há Orçamento e vontade política.

(*) Médico