Coimbra  12 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Agarrados ao poder

16 de Abril 2021

O fenómeno não é local, regional ou nacional. É, diria, global. O exercício do poder tem conduzido muita gente a ganhar raízes no desempenho de funções públicas (e também privadas), ao ponto de não admitirem a existência de alternativa, de oposição, de outra forma de pensar e agir.

Tornam-se, de certa forma, reféns do mundo que criaram, das solidariedades que estabeleceram, das promessas que fizeram ao longo dos meses tornados anos de exercício do poder. Julgam-se, a dado momento, invencíveis, donos do destino das pessoas, orientadores espirituais, pastores de todos os rebanhos.

A sua soberba é tão grande que perante a emergência de uma simples alternativa democrática tendem a agir como ditadores: vêem fantasmas onde não existem, perseguem de todas as formas possíveis os oponentes, vendo-os não como adversários mas sim como inimigos – pudera, precisam do poder para sobreviver – procurando a ofensa gratuita, o ataque pessoal, a desqualificação. Esquecem-se que todos temos famílias, empregos, ambições e projectos legítimos para que a vida faça sentido a cada dia que passa.

Mas, como um dia Carlos Encarnação escreveu, o poder é solúvel. Eles, que ocupam o poder, sabem, a bem da verdade, que mais dia menos dia deixarão de ter controlo sobre a situação – a história ensina-nos muito, a esse respeito. E é isso que amedronta quem está tão agarrado: a possibilidade de ser ultrapassado, secundarizado, vetado pelo exercício do voto, sair pela porta pequena e quiçá, julgado a vários níveis pelos seus actos de gestão, inação ou omissão.

Imaginemos, por exemplo, que uma freguesia se queixa de falta de investimento do poder camarário, que vem para a praça pública alegar que não faz obra pois não lhe dão dinheiro para tal. Contudo, omite à população que não apresentou projectos, que deu preferência a combates pessoais desprezando o ideal colectivo, enganando as pessoas distante dos factos para capitalizar votos através da vitimização e assim se eternizar agarrado ao poder.

Entretanto, outras freguesias seguem o caminho do interesse dos povos, assinam protocolos e conseguem canalizar montantes muito generosos para criar infraestruturas, desenvolver as comunidades a vários níveis, promover progresso, qualidade de vida e bem estar.

É evidente que um dia o povo acordará, apesar de sucessivas manipulações, embustes simpáticos, jogos de bastidores, ilusões, golpes de teatro, orquestrações, mãos e bolsos vazios ou cheios de nada.

Basta olhar para o vizinho e ver a dimensão do engano e do escândalo! Felizmente que isso não acontece em nenhuma das 18 freguesias do Município de Coimbra. Na verdade, só se verifica onde a prostituição política roça o ridículo e nem amigos se podem cultivar, de forma fraterna e solidária.

Que orgulho tenho nas gentes da minha terra!

(*) Historiador e investigador