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Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Afonso Lemos Proença

6 de Dezembro 2019

Encontrei há dias Alves André que, para honra dos leirienses e sua, foi autor da estátua do guarda-redes Rui Patrício, um dos melhores e mais dignos profissionais do mundo na “arte” que abraçou. Fui, porém, encontrar esse meu amigo escultor algo perplexo, quiçá indignado, e o caso não era para menos. Homem de bem, fiara-se nos mais altos responsáveis pela Câmara de Leiria, havia perdido tempo e dinheiro e desperdiçado talento num magnífico busto de Lemos Proença e, no fim, “estava a arder por inteiro”.

– O que se passa na tua cidade, que já nem me atendem? – Perguntou.

“Metido a martelo” naquela molhada, logo esclareci que, tal como ele, também eu havia bebido a “doutrina” em Cantanhede e não em Leiria. E que esta cidade não é diferente das outras, porque em todo o lado, e progressivamente, se dá o dito por não dito conforme as conveniências pessoais e as clientelas políticas. Para depois lhe dar mais algumas explicações.

Privei muito de perto com Lemos Proença, um homem muito inteligente, afável, tecnicamente competente e singularmente correto no seu relacionamento com os demais, fosse qual fosse a sua condição social. E também deixei claro que havia gerido por muito tempo uma Câmara que não gastava no supérfluo, tinha uma dívida insignificante, desenvolvia obras inadiáveis e de reconhecida utilidade, com ajustes que dificilmente poderiam cair sob a alçada da lei e com contratações de pessoal muito equilibradas, embora nem sempre as mais justas.

Em resumo, apesar de eu o ter enfrentado como raros o fizeram, e de o não considerar “perfeito”, só podia avaliar a Câmara dessa época como uma “casa” que procurava dar resposta aos autarcas, aos munícipes e aos investidores, sem “gerar grandes ondas”. Mas, também, que Lemos Proença sempre gozara da fama de se “abotoar”, facilitando a vida a certos empreendedores e assim obtendo prebendas.

Aprendi muito com Lemos Proença, um homem de quem não se conseguia ser inimigo: entre outras coisas, saber gerir crises políticas e obter consensos em matérias difíceis. Mas também dele ouvi alguns avisos úteis, entre eles o de que ninguém deve receber distinções a título definitivo, quando ainda em vida.

– Sabe… – Defendia ele, na sua enorme sabedoria. – Em qualquer altura pode aparecer qualquer coisa a manchar uma carreira pública. – E nem se coibia: – Olhem o que dizem de mim… Que tenho no Brasil isto e mais aquilo. Provem que não é fruto de dinheiro honesto.

Sem provas, eu só tinha que aceitar aquela tese e com ele ao leme, estou certo, nunca a Câmara de Leiria teria feito disparar as taxas para se tornar no “polvo” empregador que hoje é. Nunca teria enveredado por obras de fachada, como o estádio de futebol e outras de que se fala. Nunca certos departamentos entrariam em autogestão, manipulando regulamentos, impondo medidas discricionárias, adiando decisões, aplicando coimas sem justificação e facilitando abertamente a vida a graúdos, enquanto ameaçam e levantam obstáculos aos pequenos.

Não sou pessoa de pôr facilmente as mãos no fogo pelos demais. Reconheço abertamente que algumas telenovelas em que Lemos Proença se envolveu, como as do Vale da Cabrita, ficaram na memória de muitos a acinzentar mandatos que hoje, vistos à distância, só podem ser considerados esplendorosos. Mas, se é que “roubava”, fazia-o à maneira de Juscelino Kubitschek, com mestria e elegância…

Alguns dos seus mais chegados amigos entenderam agora, depois de morto, prestar-lhe a homenagem que ele sempre recusou em vida, uma decisão que foi apadrinhada pela Câmara de Leiria. Para, logo a seguir, perante algumas reações e num momento político conturbado, a autarquia deixar o escultor Alves André a “arder”. Nunca, asseguro, Lemos Proença se portaria assim. Então, que deveremos nós fazer, sobretudo quando pretendemos dar lições de ética?

Transparente como água, e como antigamente se dizia nos casamentos, quem souber de alguma coisa contra Lemos Proença que fale agora ou se cale para sempre. Se alguma coisa de grave existe, que manche a sua carreira pública, é esta a altura de abrir a boca. Caso tal não aconteça, resta à Câmara de Leiria, como pessoa de bem, para além de pagar aos vivos em qualquer circunstância, saber honrar os seus mortos:

– Com ou sem homenagem, descansa em paz Presidente Afonso Lemos Proença!

 

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