Coimbra  25 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Aeroporto: Coimbra precisa de poder ter pio

5 de Setembro 2017

1 – A decisão do Governo de, sem qualquer debate prévio, candidatar a cidade de Lisboa para sede da Agência Europeia do Medicamento (AEM) contendeu com a apregoada política de descentralização e coesão territorial.

2 – Todos sabemos que Lisboa tem já sediadas duas agências europeias, as únicas instaladas em Portugal, para além de algumas das delegações de instituições europeias, bem como a quase totalidade de instituições, serviços e empresas do Estado.

3 – Já se sabe que, mais uma vez, este Governo se precipitou e acabou por arrepiar caminho, virando a agulha para a cidade do Porto.

4 – Contudo, quando li que se ia abrir uma janela de oportunidade sobre a possibilidade de a AEM ser instalada em Portugal, esfreguei as mãos de contente, porque me pareceu quase um fato feito, por encomenda, à medida de Coimbra.

5 – A AEM visa a protecção e a promoção da saúde pública e animal através da avaliação e supervisão dos medicamentos para uso humano e veterinário.

6 – É, ainda, responsável pela avaliação científica dos pedidos de autorização de introdução de medicamentos no mercado apontados a nível da União Europeia, desempenhando um papel no processo de inovação e de investigação na indústria farmacêutica.

7 – Olhando com racionalidade para competências atribuídas à AEM, salta à vista que Coimbra tem argumentos fortes, porque é uma cidade da saúde nas suas múltiplas dimensões, habituada a trabalhar em rede, até com outros continentes.

8 – Mas, para além disso, Coimbra tem outros fortes galões, tais como sólidas infra-estruturas de educação, oferta de serviços de saúde de excelência, uma centenária Universidade e um Instituto Politécnico de referência, centros de Investigação abertos ao mundo, empresas de prestígio (cujo “core business” está relacionado com o medicamento) que fazem dela a cidade com tudo para ser a bandeira da candidatura de Portugal à AEM.

9 – Ora, não há bela sem senão, porque, ao lerem-se os critérios para a decisão sobre a eventual instalação da AEM em Portugal, alguns deles são madrastos para Coimbra.

10 – Falo da disponibilidade de quartos na área da hotelaria, onde, por exemplo, há necessidade, para algumas reuniões, de 350 quartos num só dia; penso na exigência de escolas multilingues para dar resposta às necessidades das crianças filhas dos funcionários da AEM, área onde temos falhas de escolas europeias com fôlego para estas ambições.

11 – Mas vou deter-me nas acessibilidades, o mesmo é dizer na existência e proximidade de um aeroporto com ligações internacionais, com uma razoável frequência e duração de voos de ligação entre o Centro / Coimbra com as capitais de todos os estados membros da União Europeia, adequadas à existência de agências europeias ou até de outros investimentos europeus.

12 – Chegados aqui, temos de reflectir na questão do “aeródromo ” de Cernache, que está na crista da onda, e na sua eventual projecção como um aeroporto capaz de responder às exigências da “Liga Europa”, sobretudo quando surgem oportunidades como esta da AEM ou de outros apetecíveis investimentos europeus geradores de emprego.

13 – Cernache é Coimbra. Cernache é pôr Coimbra no centro do Centro. Cernache é proximidade. Cernache pode ser a resposta às exigências dos critérios apertados destes grandes investimentos, com retorno directo e indirecto assegurado.

14 – Coimbra precisa, como de pão para a boca, de infra-estruturas e de uma rede de ligações internacionais que lhe permitam ter pio, quando estas oportunidades aparecem.

15 – Faço, portanto, parte da equipa dos que pensam que, se possível, é importante avançar, sustentadamente, sem eleitoralismos, sem gastos megalómanos, para as adaptações que, nesta área, os estudos técnicos e financeiros reclamam, de forma a que o aeródromo de Cernache possa passar, tão rápido e seguro quanto possível, a receber voos civis e comerciais. (Que se saiba aproveitar a reflexão feita na fase do governo municipal de João Paulo Barbosa de Melo, em 2011 -12, que avaliou a situação, mas os tempos, no contexto da privatização da ANA, não eram favoráveis a gastos «gordos».

16 – Contudo, como me referiu um expert, os cerca de 1 200 metros actuais (920 asfaltados e mais cerca 250 em terra batida) da pista de Cernache dão “de caras”, diz ele, para aterrarem os aviões A319 da TAP, sem prejuízo de a mesma distância da pista poder acolher, até, os A320, desde que equipados com um «Kit» para travagem em pistas mais curtas. Disse-me, ainda, a mesma fonte que esta distância poderá acolher voos da Rynnair e da EasyJet, lembrando- me o caso do aeroporto Santos Dumond, pujante de actividade, com os seus cerca de 1 250 metros de pista.

17 – Mas não vou entrar por aqui. Não sou técnico e não sei se será mesmo assim. Apenas olho politicamente para esta promessa, e com ela fico a torcer que a ideia vingue, porque parece exequível, desde que haja os milhões necessários para a obra: pista, terminal, aerogare, etc, etc.

18 – Portanto, vamos a isso, vamos atrás do compromisso de responsabilidade que fez o dr. Manuel Machado, perante todos, de fazer a obra, sabendo-se que se não cumprir sobrará para ele; adivinho o «entusiasmo» de muitos, porque nestas questões só há uma camisola política: a dos interesses de Coimbra e da região Centro.

19 – É que, com Monte Real a derrapar sucessivamente na velha questão dos interesses militares, é a altura de perceber as vantagens inestimáveis para o comércio e a indústria da existência de um aeroporto no Centro, onde Coimbra é mesmo central, não criando e alimentando, por cegueira masoquista, outros espaços (e “fantasias”) a serem disputados por outras cidades da região.

20 – É preciso ousar, sobretudo quando os números em equação nos empurram para Cernache, dando-nos, até, tranquilidade no uso dos dinheiros públicos, face à realidade física existente e aos mínimos de sustentabilidade de uma operação aeroportuária desta dimensão, que pode ter grande retorno e que tem a proximidade, que sabemos, com a sociedade iParque.

21 – Falo a pensar no que os entendidos dizem ser o mínimo necessário: 1,20 milhões de passageiros.

22 – Ora, Fátima, sem Monte Real operacional, dá suporte a esta ambição. Basta pensar que Fátima, só por si e por ano, e em crescendo, já vai, em 2017, nos sete milhões de visitantes, muitos deles a utilizar o avião para esse efeito.

23 – Vamos aceitar o convite para sonhar, levando o sonho até à utopia, se necessário… Vamos pensar numa cidade e numa região que vão crescendo (muito pouco nos últimos quatro anos), mas que poderão beneficiar, e muito, com a existência de um aeroporto em Cernache, isso é indiscutível. Com ou sem eleições, marchar, marchar…

(*) Vereador do PSD na CMC

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