Coimbra  23 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Achegas para a História do Hospital dos Covões (II)

4 de Setembro 2020

Entre Setembro de 1957 e Agosto de 1959, numa altura em que Bissaya Barreto já se encontrava jubilado emerge a questão hospitalar, conhecida problemática que no Diário de Coimbra se desenvolve sob o título «Coimbra precisa de ter um Hospital-Faculdade, Coimbra precisa de ter um Hospital-Cidade».

Sobre as motivações subjacentes a esta questão-problema escreveu Bissaya-Barreto em 1959: «houve em mim apenas este propósito: trazer à discussão um problema, que se me afigurava e se me afigura da mais alta importância, da maior oportunidade e do maior interesse para o ensino da Medicina em Coimbra e para a assistência hospitalar no Centro do País».

Num processo em que se confrontam opiniões divergentes, o professor defende que a resposta mais económica e perfeita para a solução do problema hospitalar de Coimbra seria a «de ter um Hospital-Cidade a instalar nos actuais Hospitais da Universidade e um Hospital-Faculdade a construir em local a escolher» – que no seu entender era na Quinta dos Vales, junto ao lugar dos Covões, onde existia já um Sanatório em funcionamento. No primeiro, destinado sobretudo a assistir, far-se-ia a «A clínica de todos os dias e dos doentes vulgares», no segundo, voltado para a arte de ensinar, «a outra, a grande, a rara, a que exige competências excepcionais especializadas, técnicas raras».

Com perspectiva bem diversa se apresentava a Faculdade de Medicina, que pretendia: não só um novo Hospital-Escolar, pela transformação dos Hospitais da Universidade em Hospital-Faculdade, onde funcionariam as Clínicas Gerais; mas também um novo hospital no bloco de Celas, adaptando casas antigas, que viesse a constituir o Hospital-Cidade, colocando ambos sob sua dependência.

A posição de Bissaya-Barreto, que tinha como modelo a Cidade Hospitalar de Lille, tinha várias justificações; de ordem geográfico-territorial, de organização do ensino e de salvaguarda de património. No primeiro caso porque a área disponível na zona da Cidade Universitária não chegava para um Hospital-Faculdade digno de Coimbra; no segundo porque entendia haver toda a vantagem em afastar o Hospital-Faculdade, sede das clínicas frequentadas pelos estudantes do IV, V e VI anos, do edifício da Faculdade de Medicina, sede Laboratórios e Institutos, frequentados pelos alunos do I, II e III anos.

No tocante ao Hospital Faculdade, Bissaya Barreto tem efectivamente ideias muito claras sobre o que pretende, em termos de equipamento, função e localização. Na Comunicação apresentada no X Congresso Beirão define o Hospital Escolar como Escola de Educação Médica:

«Pretendemos um Hospital Escolar, o mais completo, o mais perfeito, com tudo que lhe é indispensável e falta aos outros Hospitais Universitários: Medicina, Cirurgia, Especialidades médico-cirúrgicas, Consultas externas, Regime ambulatório, Escola de enfermagem, Residência para residentes e, se possível, um Bairro escolar (…) um Centro de Investigação Clínica, Hospital central, universitário, com uma lotação de 600 doentes».

Quanto à função, intimamente ligada à Faculdade de Medicina, «…não é fazer assistência, mas formar médicos, suficientes e eficientes, criar ciência e transmitir cultura. Fazer o que os outros não podem fazer: Cursos de aperfeiçoamento, Cursos para internos, Cursos de actualização de conhecimentos hospitalares».

A questão tornou-se de tal maneira volátil que a censura chegou a proibir a publicação dos artigos de Bissaya-Barreto – homem fortemente conotado com o regime político vigente.

(*) Historiador e investigador