Coimbra  22 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Académica/OAF: Sim ou sopas

29 de Maio 2019

SAD ou SDUQ, eis a questão. De novo.

Debatidos que foram, até à exaustão, todos os cutiliquês de cada uma destas opções para o futuro da Académica, os sócios foram a votos e quiseram a SDUQ.

Longe de mim defender que se deve ficar parado em cima do cavalo num tempo, que mexe sem parar. Isso pode dar mau resultado. A terapia é saber ler o som dos ventos, que passam, e saber ter atenção aos desígnios que marcam o essencial de uma Instituição, como é a nossa Académica, que sempre foi orgulhosamente portadora de um projecto próprio no âmbito sóciodesportivo.

Depois e sempre de forma aberta, não unidireccional, ligando, criticamente, os prós e contras de uma opção aos contras e prós da outra opção.

A seguir saber antecipar o que iremos colher depois de escolher as sementes, bem como as suas implicações, quer no domínio da sustentabilidade financeira, quer nas consequências, que podem ser fracturantes, do debate ideológico/desportivo, que de novo se está a suscitar.

Agora, felizmente, de forma aberta, suprindo-se o défice de informação, que os sócios tinham, sobre os movimentos da actual Direcção, buscando soluções do outro lado do mar à procura, na banca, do ovo de Colombo, sem ter tido em conta a anterior decisão dos sócios, que há pouco tempo, através do voto, absorveu a rememoração da nossa especificidade ao optar pela SDUQ, para vencer os desafios estratégicos com que nos defrontamos.

Não se trata de ressuscitar teses passadistas. A decisão é recente, bem recente, e ela não excluía o golpe de asa, antes pressupunha a existência de passos reformistas na organização e ambição da Académica, em ordem a valorizar tudo o que pudesse contribuir para o engrandecimento desportivo, financeiro, ético e social da nossa Instituição.

Esta mudança de azimute, esta “opção” pela SAD, só pode significar que quem dirigiu a Académica, nestes tempos recentíssimos, reconhece que falhou nesse compromisso com a Briosa e com os seus sócios, de alargar, densificar e sustentar a posição da Instituição no mundo do futebol, que temos, evidenciando falhas na gestão exigente e singular da nossa Briosa.

Será que a culpa é do modelo ou de quem o exercitou?

Será que se passou ao lado de um inevitável processo de modernização na gestão desportiva?

Não havendo tempo nem espaço para ir mais longe num diálogo interpelante e rico que, no reconhecimento das diferenças de ponto de vista, pudéssemos ter, outra vez, à volta da SDUQ/ SAD, como meios de gestão desportiva, limito-me, uma vez mais, a sublinhar a originalidade, especificidade e riqueza ímpares, no espaço desportivo nacional, da nossa Académica e o contributo que ela tem deixado de dar, sentindo-se que tem havido uma cadeira vazia, vestida de negro, na 1° Divisão, que evidencia a falta que ao futebol de primeira continua a fazer o pensamento e forma de agir de uma Instituição, que deve saber continuar diferente a trilhar caminhos e a partilhar reflexões.

Estamos, outra vez, numa verdadeira encruzilhada com estas eleições.

A aproximação ás causas e efeitos das opções em jogo tem que ter em conta os problemas e desafios complexos, as condicionantes da Instituição, as suas eventuais fragilidades, a avaliação do contexto, que lhe foi criado nos últimos anos e a perspectiva de articulação e divergência das dimensões académicas, que nos últimos tempos têm dividido a nossa casa.

É que a SAD, de novo, ressuscita um conjunto vastíssimo de interrogações dirigidas a todos nós, sejam essas interpelações genéricas ou muito concretas, detalhadas ou minudentes, sobre os caminhos que se querem trilhar com ela, e que podem descaracterizar a identidade da Académica, cujo “core business” é a diferença.

É a ideia de muita gente.

Em síntese de síntese: queremos na gestão da Académica o “dinheiro cego”, brasileiro ou de outra origem, passe a expressão, como pode suceder na SAD, ou a “alma Académica” como acontece na SDUQ, onde é, só e só, o CLUBE/INSTITUIÇÃO a decidir os seus destinos e onde, portanto, os seus valores de origem não serão beliscados?

Onde são os sócios os seus decisivos protagonistas.

É que apesar do carácter mutante na gestão do futebol, a Académica baliza-se por parâmetros e comporta elementos de referência constantes, mesmo quando for preciso ajustamentos ás circunstâncias. E a forma de contornar a “armadilha”, que o insucesso desportivo alimenta, é saber encontrar um ponto de sustentação financeira na construção do nosso projecto competitivo, assente no actual modelo de gestão e exercitá-lo com a passada certa.

Falando português claro: boa gestão.

Ninguém, atento, pode querer ligar a criação de uma SAD a aumentos de competitividade e saúde financeira.

Li, algures, que em 18 SAD, há apenas três casos de sucesso e neles os passivos aumentaram: Benfica, Porto e Sporting.

A finalizar, é preciso ter a nocçāo, que a AAC/ Organismo Autónomo se situa num contexto de interdependências em que estão umbilicalmente enovelados não só os sócios, mas também a Casa-Mãe, a Associação Académica de Coimbra. E que a respectiva Direcção, neste contexto, já fez um aviso claro à navegação ao afirmar que o nome e o símbolo da Associação Académica são pertença da Casa Mãe, definidos em protocolo entre as partes com pertença única e exclusivamente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra, enquanto símbolos da Academia.

Mais claros não podiam ser…

Também, por isso, tenho fundado receio da opção pela SAD como modelo de gestão para a nossa Briosa.

Confesso, com sinceridade, que a SAD me causa arrepios de incomodidade académica, sendo tempo de nos defendermos, de vez, do desconforto de vermos que há quem queira tornar pior o que puseram mal.

E não estou sozinho, seguramente.

Tenham paciência: com a SAD nāo dá a bota com a perdigota!

(*) Ex-jogador da AAC (1965/1979), director do CAC (1975/76), vice-pPresidente da Casa Académica de Lisboa (2000/2004) e presidente do Núcleo de Veteranos (2004/2008).

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