Coimbra  17 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

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Hernâni Caniço

Académica no fundo, que fazer?

29 de Abril 2022

A “Académica”, outrora respeitada no mundo do futebol, pela qualificação dos seus dirigentes, pelo empenho e dedicação dos seus jogadores, pelo floreado e eficácia do seu futebol, pela mística de grande clube, pela defesa de causas em ser humano, geradora de simpatias por todo o mundo lusófono, está no fundo (desportivo, directivo, económico-financeiro e que mais…).

A “Académica de Coimbra” (AAC-OAF), por vezes equiparada à “Associação Académica” (AAC), desmerece o seu passado, está sem presente, e terá de procurar o seu futuro. Tem falta de mérito desportivo, tem quadros técnicos desenquadrados do projecto (se é que existe projecto), tem profissionais que são amadores no terreno do jogo, tem amadores que são profissionais sem competências demonstradas na gestão do grupo que nem grupo é.

Como tudo na vida, existem causas e potenciais soluções, assim queiram reconhecê-lo os envolvidos, os esperançosos e os lutadores.

O passado da cisão do futebol com a academia não ficou resolvido com a criação do “Académico” e posterior AAC-OAF, ficando fracturas não consolidadas, arrogância bilateral quanto baste e humildade fora dos espíritos sectários, conduzindo a um distanciamento entre “a cidade dos estudantes” e o mundo do futebol.

As figuras de referência do clube (no campo) foram colocadas como decorativas, elogiadas, mas não aproveitadas no seu prestígio e influência mobilizadora, sendo substituídas por gestores negociadores, negociantes e incautos, alimentados por um séquito em que muitos se contentam (quiçá) com foto semanal nas páginas dos jornais, sem produzir ideias consistentes ao serviço do clube.

As forças vivas da cidade, representadas por empresas, Universidade, estudantes, comércio, indústria e serviços, (em parte, a autarquia e até os organismos associativos) ignoraram investimentos, apoios e cooperação, sendo um benemérito (de facto) exterior à cidade de Coimbra, mas de coração.

A população (hoje quase todos doutores e doutoras) deixou de se identificar com um símbolo que hoje nada lhes diz, nada lhes oferece, nada os tenta atrair, embora seduzida (e ainda bem) pela Queima das Fitas (novamente) e pela canção de Coimbra (sempre), mas também pela praxe estudantil medieval (e ainda mal).

Também não há identificação da Académica com a cidade e o país, perdendo-se um capital de simpatia e amizade que não tem sido mantido nem estimulado, deixando cair a concepção da Académica como “segundo clube” da preferência dos portugueses (porque não?). Porque ser só “Académica”, é uma marca de valor, orgulhosamente só? Deu no que deu, com estádio vazio, com elementos de claque que agridem adeptos adversários em jogo particular, com uma elite directiva à volta do seu umbigo, com a equipa a afundar…

Todos os modelos de gestão desportiva devem estar em causa, desde a SDUQ (que não pareça uma SAD), à SAD (que não seja quero, posso e mando) ou o retorno à casa mãe (como organismo autónomo), situação afinal em que a Académica foi vice-campeã nacional, logo atrás do Benfica…

A “Académica” é um estado de alma, um símbolo que não se esgota, em que múltiplas gerações e suas famílias a têm como referência, vivendo em Coimbra ou relembrando o seu percurso da juventude, entretanto ultrapassado pelos ditames da profissão e da vida.

A solução para o sucesso da Académica passará pelo reconhecimento destes factos e problemas, pelo aproveitamento das suas potencialidades, pela competência dos gestores, pela mobilização de estudantes e movimento associativo, pela revitalização do tecido comercial e industrial, pelo envolvimento da população com ideias, causas e iniciativas.

Não há mais lugar para pedestais. Em debate democrático e apelo à cidadania, pergunte-se aos cidadãos o que podem fazer pela Académica e clarifique-se o que pode fazer a Académica pelos cidadãos, não só em Coimbra. Na era da mediatização, do aproveitamento de recursos estruturais, das parcerias, consórcios e agências, será um desperdício continuar a queda para o abismo.

(*) Médico