Coimbra  23 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

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José Belo

Académica: Honrar o passado e rasgar caminhos

26 de Março 2019

É possível amar uma instituição desportiva? Podemos apaixonar-nos por um emblema? Será que ao olhar e sentir uma camisola se pode criar uma emoção sem fim?

A Académica de Coimbra alguma vez será, aos olhos daqueles que dela gostam, “irrelevante”? Como responder a estas perguntas, sobretudo quem tem mais de 50 anos de associado?

Os que possuem essa experiência, como eu, é natural que alguma vez tivessem atravessado períodos de menor fulgor nessa relação. Digo isto porque não devemos ter medo das palavras, porque quando a paixão e o sonho são grandes, quando se quer ousar na construção do futuro, é natural que haja abanões na própria indefectividade, que nos liga à Académica, deixando, em alguns espaços temporais o fervor e o sonho luminoso em modo de baixa intensidade.

Dizer o contrário seria risível, já que ao longo da minha vida é possível, a todos, revisitar, através dos meus despretensiosos escritos, o desenho da minha ininterrupta paixão, e nela alguns desencantos, bem como a força prevalecente das minhas convicções académicas numa ligação para a vida, que vai expressando a própria liberdade do pensamento académico.

Aliás, contar essa História é explicar o tal trajecto de várias décadas. Nele cabe o tempo de futebolista, durante 14 épocas consecutivas (1965 -1979), tendo envergado a camisola da Seleção,

até; estão dois anos de jogador-dirigente nos tempos difíceis do Clube Académico de Coimbra, na Direcção do saudoso eng. Júlio Couceiro, criado pela turbulência e alguma cegueira do pós-25 de Abril de 1974; depois, largos anos de ausência de Portugal, em Macau; regressado, acrescem mais quatro anos como presidente do Núcleo de Veteranos e igual período como vice-presidente da Casa Académica de Lisboa; mais recentemente um longo período onde andei sempre com o passo trocado com o projecto que foi executado pela Direcção do eng. José Eduardo Simões, de tal modo que fui a votos, pela “oposição”, como número dois da lista do dr. Nuno Oliveira, que, mais tarde ou mais cedo, terá encontro marcado com o lugar de presidente da instituição.

Por isso, rememorar este percurso é também dar vida a páginas bonitas de sucessos desportivos, sociais e políticos, como a final da Taça de Portugal de 1969, de reflexão sobre os homens e as políticas desportivas, que quiseram e puderam protagonizar, de várias ideias sobre um projecto

académico, que emagreceu, entre outros motivos, por falta de inteligente pragmatismo ao não saber acompanhar e antecipar os novos contornos da evolução do futebol, ao não tirar as devidas conclusões dos efeitos e das consequências dessas novas dinâmicas, que nunca mais pararam de acelerar e exibir novos e discutíveis métodos e objectivos.

O problema a resolver era mais fundo do que desatar a recrutar jogadores, por atacado, pela escada de serviço, sem passar pelo «crivo» da própria História da nossa instituição.

De facto, confortados pelo efeito de inércia de algum encantamento desportivo na década de 60/70 [do século XX], não se soube despertar para uma realidade nova, premente de séria reflexão. Se calhar, seria preciso vir à rua e desembainhar a espada…

Mas não o fizemos, apesar de tudo concorrer para irmos a jogo na construção de uma nova “geografia” no futebol, onde o nosso modelo podia ser uma estimulante referência.

Precisava-se de habilidade e influência para não potenciar receios no seio da tribo do desporto-rei, seria necessário ter sabido caldear experiências diferentes no projecto comum, legitimando, nele, a nossa original forma de estar no futebol.

Ora, a nós não nos deve bastar defender a Académica primeiro, mas também a Académica entre os primeiros da I Divisão. Esse deve ser um dos nossos grandes objectivos, a médio/longo prazo. Mas, como em tudo, refinando a inteligência académica em quadros de agregação e tolerância.

Na altura do início desta “revolução”, no e do futebol, tínhamos os nossos valores e desígnios ainda bem vivos e, sobretudo, respeito para antecipar, fazer ecoar e defender, nela, uma brecha onde coubesse uma abordagem diferente do futebol, depois de catequizar, intra-muros, aquela “facção” que gosta, só e só, da bola no fundo da baliza, criando -se densa energia académica consubstanciada numa coesa frente para ganhar território e poder sustentá-lo nos tempos complexos que as mudanças sempre criam.

Será que ainda posso acreditar que haja um milagre, assente na leitura, significado e valor da nossa História e dos seus resultados passados, fruto palpável de uma agora abalada dimensão sócio-desportiva?

Talvez a solução passe por um golpe de asa, que nos permita refinar e refundar uma originalidade e um pioneirismo que, sem trair o que fomos, nos permita encaixar dentro do futebol de agora, com ambição e com inatacável compromisso ético, apesar dos choques inafastáveis entre os princípios e os “negócios”, num caldeamento feito a partir da realidade de uma prática de “céu limpo”, que também tem que ser possível nos novos tempos e nos novos desafios. Isso não tem acontecido, ainda.

Continuo, porém, a pensar, independentemente das convergências ou divergências de julgamento sobre a Académica de hoje e do seu lugar no contexto actual do desporto-rei, que é incontornável um grande debate sobre o que fomos, somos, queremos e podemos ser.

Porque não criar-se um “think tank”, um laboratório de ideias estratégicas? Gente de grande e densa qualidade académica não nos falta…

Temos sido incapazes de antecipar temas e debates que o passar dos anos nos diz, depois, terem sido postergados. Temos de olhar para nós, para o que foi a nossa identidade, como uma eventual enriquecedora complementaridade no novo modelo, que se construiu, dizendo que existimos e que não queremos ficar para trás face aos desafios estratégicos com que todos, à sua maneira , se defrontam.

Há um longo caminho a fazer.

Os que já partiram, “irmãos” de balneário, alguns ainda em período de nojo, como o saudoso Vítor Campos, que levaram com eles um pedaço de mim, lá nas suas bancadas etéreas onde se sentam, estarão a torcer para que isso aconteça.

Lembro-os a todos com um sentimento de perda, sofrido e dorido, que resulta de uma ausência que não permitirá, mais, partilhar cumplicidades e reflexões académicas à volta de um café, como pretexto. Onde tantas vezes se alavancava a consciência dos objectivos e ambições para a Académica ainda por concretizar.

E tudo isto, sempre, num quadro de uma exaltante militância, que acontecia porque acreditávamos ser possível encontrar soluções inovadoras, que assimilassem e driblassem a complexidade dos novos desafios ligados a esse jogo lindo, a que me mantenho orgulhosamente fiel.

Será preciso, portanto, que não nos deixemos adormecer sobre uma História que tem muitas páginas lindas, mas onde se precisa de redefinir objectivos e saber assumir propósitos dinâmicos capazes de acordar esse sonolento gigante de afectos.

Porque nenhum de nós, que envergamos essa negra e mágica camisola, “…quer mais ontens do que amanhãs”, como diria Mia Couto.

Viva a Académica!

(*) Ex-presidente do Núcleo de Veteranos e antigo jogador

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