Coimbra  28 de Novembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Académica!

12 de Novembro 2021

Fiz-me sócio da Associação Académica de Coimbra (quanto ao futebol, pois como estudante universitário já tinha adquirido ser associado da AAC), há 50 anos, quando a “Académica” desceu à 2.ª divisão, por solidariedade estudantil, condição que cessou pós 25 de Abril, pela confusão instalada quanto ao profissionalismo versus amadorismo e pela convulsão política vigente, que me conduziu a outras prioridades solidárias a favor das quais já tinha lutado na ditadura.

Está hoje serenado o clima quanto à representatividade da Académica e ao reconhecimento da prática do futebol como mais valia, constituindo um ex-libris da cidade de Coimbra, com implantação nacional (há ex-estudantes de Coimbra em todo o País, cuja saudade perdura) e internacional (há delegações e personalidades que nela se revêm em todo o mundo, chegando a haver uma filial em cada uma das 9 ilhas habitadas de Cabo Verde).

A “Académica” é um estado de alma, um símbolo que não se esgota. Múltiplas gerações e suas famílias têm a Académica como referência, vivendo em Coimbra ou relembrando o seu percurso da juventude, entretanto ultrapassado pelos ditames da profissão e da vida.

De uma forma generalizada, a Académica tem um capital de simpatia e amizade, que por vezes ultrapassa a raiz do pensamento, e que não se resume ao futebol e seus resultados ou às festas académicas que enquanto estudantes e as suas famílias orgulhosas usufruíram (ou não).

Sendo o futebol um jogo qualificado e não uma ciência absoluta, um acto lúdico e promotor do desporto e não uma competição a todo o custo, não deixa de ser triste a perspectiva de descida da Académica à 3.ª divisão (hoje Liga 3), o que aconteceria pela primeira vez na sua história, cujo significado não pode ser atribuído apenas à eficácia do avançado, ao falhanço da defesa, ao azar do lance na trave ou à arbitragem mal conseguida ou intencionada.

Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, responsabiliza treinadores, jogadores, dirigentes, adeptos, simpatizantes, e na verdade se muitos têm o mérito de apoiar sempre, não deixando para outros o trabalho, o empenho e por vezes a dedicação, também é verdade que há quem apareça apenas nas páginas dos jornais em fotos de pose, mas não de contributo (sempre os mesmos), como VIP (discutível) da cidade dos doutores e do provincianismo que não merece.

E até com uma claque, onde existirão indefectíveis civilizados, sofredores pelos resultados e amantes do clube emérito, mas também onde existe quem atira adeptos de adversários das bancadas (aconteceu num jogo particular…), e insultam outros adeptos por palavras, gestos e por vezes algo mais, inclusive acompanhados de crianças, que irão reter imagens de agressividade e violência, quando o futebol deveria ser alegria, pedagogia e união.

O equilíbrio financeiro, o investimento em recursos humanos, a boa gestão das potencialidades em receitas aproveitando a imagem externa da Académica, de quem todos gostam ou pelo menos não desgostam, não pode fazer descurar a necessidade de bons executantes, de técnicos sabedores, de dirigentes competentes e de um modelo de gestão desportiva adequado à filosofia do futebol, ao pragmatismo das subvenções justas e à imagem de um clube que já não é de estudantes (a saudade não resolve…), mas é da cidade, da região, do país e do mundo, sem exageros de triunfalismo, nem ganho secundário indevido nem subversão de princípios éticos.

O futebol, preservadas as leis da concorrência e a regulação económica pelo Estado em função dos apoios públicos e seu controlo, é uma actividade desportiva com função social, sendo ainda um veículo de promoção de ideais onde o respeito e a fraternidade são inerentes (quando existem boas práticas), merecendo destaque pela adesão, pelo impacto na sociedade e pelo desenvolvimento criado quando harmonioso.

Apoiar é um direito e um dever

Apoiar a Académica é um direito e um dever da cidade onde se insere e a prestigia, dos cidadãos que reconhecem a história, a emoção e o crédito adquirido, das estruturas oficiais com serviço público e acção social (como a Câmara Municipal), das empresas pela sua responsabilidade social e mecenato, das organizações da sociedade civil sem fins lucrativos através de parcerias e protocolos com reforço de objectivos comuns.

Para que a Académica não seja uma saudade (embora já não seja o clube dos estudantes), é necessário que a articulação entre a AAC e a AAC – OAF seja perfeita, incutindo nos estudantes a união e a mística (além da quota, reduzindo uma cerveja e um shot mensal), promovendo o desporto para todos e o bem comum (com utilização de estruturas e contratação de técnicos), e consagrando o prestígio da alta competição e o usufruto não só personalizado nos atletas (o verdadeiro espírito olímpico nos tempos modernos).

É preciso reflectir, é preciso acreditar. Reflectir sobre a função dos senadores e novos líderes associativos, as prioridades do desporto, cultura e imagem de Coimbra enquanto Património Mundial da Humanidade.

É preciso acreditar, que o envolvimento da cidade e de quem no Mundo gosta da “Académica” se retome e se materialize em novas formas de união geradora de sucesso, em representação que incremente o nome e a dignidade centenária, em eventos descentralizados, e no reforço do sentimento e práxis que levaria Coimbra a ser uma cidade mais solidária e a Académica a ser mais do que um clube, uma bandeira de liberdade e coesão. Viva a Académica!

(*) Médico