Coimbra  4 de Agosto de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Abril, não foi fácil, mas valeu a pena

29 de Abril 2021

No próximo ano, o regime democrático oriundo do 25 de Abril fará 48 anos, tantos quanto a duração do regime ditatorial do Estado Novo, em que ainda vivi, combati, sofri, e tive as consequências do que assumi.

Até Abril, não foi fácil, não.

Não foi fácil, porque morava numa casa farta, mas de tristeza, pois tinha dois irmãos a combater na guerra colonial na Guiné-Bissau e quando ia à missa “dos soldados” ouvia o padre ameaçar que os familiares dos faltosos perderiam os seus filhos. O meu pai tinha sido impedido de ser presidente do clube de futebol local por ter distribuído cartazes de Humberto Delgado (mais tarde, pedir-me-ia exemplares de cartazes da Oposição). A minha mãe, protectora, chorava pelos seus filhos ausentes, sempre no receio da pior notícia que felizmente não chegou.

Hoje, perdeu-se a casa farta e uma parte dos entes queridos e as sequelas da guerra não desapareceram de todo.

Não foi fácil, em terras da lezíria e como jovem colegial, quando protestava contra a ditadura e defendia a Oposição Democrática, quando colava cartazes nas ruas e nas portas do armário da camarata (sempre à espreita que um serventuário do regime denunciasse a “subversão”), quando era vítima de bullying, porque não era suficiente ser bom aluno, era preciso corresponder ao padrão da elite marialva e bajulação de tiranos, o que não era o meu perfil.

Hoje, 50 anos depois, há gente do meu tempo, que considera que eu estava à frente do tempo.

Não foi fácil em Coimbra, terra dos estudantes, porque era bom estudante (nunca “chumbei”), mas era também um revoltado pela ausência de liberdade e de justiça social, porque as manifestações, os “meetings” e as concentrações de protesto contra a ditadura eram proibidas e eu não prescindia do exercício da democracia, porque por trás de cada esquina, café ou autocarro havia um PIDE (polícia política) ou um bufo que nos perseguia (verdadeiro big brother que tudo vigiava e delatava), porque colaborava com a esquerda revolucionária e com a esquerda convencional, que rivalizavam.

Hoje, mantém-se o espírito de solidariedade pelos desfavorecidos e a vida política activa como socialista, em coerência.

Não foi fácil, porque passava noites de breu a distribuir panfletos contra a ditadura pelo Ribatejo (nunca esquecido) e em Coimbra (terra de encanto) e a difundir mensagens pela igualdade na Nazaré (de veraneio), porque fui preso por protestar contra a guerra colonial, porque fui agredido pela polícia quando me manifestei pela liberdade e era prática do regime, porque fui condenado por insubmissão e rebelião sem direito de opinião.

Hoje, veio-me à memória, quando doava vinte e cinco tostões para fazer os comunicados revolucionários impressos em stencil e trabalho manual clandestino, e não gastava o dinheiro na compra de umas calças como a mãe pretendia. A vida é água a correr.

Mas Abril valeu a pena, sim.

Valeu a pena ter um Pai (que já partiu) que me apoiava contra as diatribes do regime, constituir e reconstituir família com identificação de princípios e valores subjacentes a causas humanitárias, ter uma descendência de que me orgulho, com afinidade, sentimento de união e compreensão.

Hoje, as famílias não são destroçadas pela guerra e são apoiadas em crise, não por caridadezinha mas por direitos humanos, a justiça não é perfeita mas age com independência e carácter, a habitação não são barracas levadas pelas cheias, a paz não tem preço.

Valeu a pena ser médico, ser professor, ser voluntário, três “empregos” de igual valor e mérito, porque servi e não me servi, por ter atingido o topo não em sobranceria, mas em dedicação e por vezes reconhecimento, por ser útil a quem precisa e merece.

Hoje, há acessibilidade à saúde para todos (que alguns gestores desperdiçam), há admissão à educação para todos (com problemas de uniformização), há sociedade civil que fortalece a democracia representativa (apesar de alguns crápulas e embuste associado).

Valeu a pena ter contribuído para salvar, reduzir dano ou simplesmente apoiar doentes em padecimento e amargura, ensinar futuros (atuais) médicos em relação médico-doente e medicina de família, minimizar a desigualdade e sofrimento dos povos de língua portuguesa em objectivos de saúde, formação em comum e ajuda humanitária e ao desenvolvimento.

Hoje, a assistência médica e em saúde está consolidada com profissionais de saúde que aliam o afecto à competência (embora com intercorrências externas), o ensino / aprendizagem tecnológico não perde proximidade (embora com seres pequenos que se julgam grandes), a lusofonia e o desenvolvimento sustentável acompanham a transição digital e climática (embora haja protagonistas sem protagonismo).

Tive um privilégio. O privilégio de ter pertencido a uma geração que lutou por Abril, viveu, contribuiu para o progresso, estima Abril. E fazer parte da história.

Curvo-me perante esta geração de Abril, que estará em vias de extinção física, mas deixa convicções, dignidade, padrões e causas.

Com o desejo e um voto. Que os meus netos / netas conheçam a história do avô e a História da geração de Abril, que não foi fácil, mas que, para eles/elas, continue a valer a pena. Com o próximo Abril em liberdade plena e saúde.

(*) Médico, membro do PS na AM de Coimbra