Coimbra  12 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Abril mais longe, mas resiste!

15 de Março 2024

Assumindo a ética na política, há que felicitar os vencedores e prestar honra aos vencidos. O vencedor foi a AD, como força política com mais condições actuais para governar, em função dos votos e da maioria de direita, sendo o PS vencido, em minoria de esquerda.

Na noite eleitoral, quase todos os partidos vencem, satisfeitos com expectativas menores do que as que propalaram em campanha, e poucos políticos mantêm a coerência.

Venceu a comunicação dos agentes políticos mostrando-se como malabaristas, fazendo promessas que não cumprirão e ataques de carácter, que transformaram suspeições em indícios ridículos, da manifesta má-fé, sem evidência de prova, mas destruidor da dignidade e do respeito.

Venceu a comunicação social que deturpou debate e investigação séria, criando uma rede televisiva de comentadores que dissecou palavra por palavra dos protagonistas, sendo escolhidos a dedo entre as variantes da direita, com interesses próprios, manipuladores da opinião pública.

Perdeu o estilo de campanha com comícios, jantares e arruadas, programas que ninguém lê, tempos de antena escondidos. As televisões massacraram os espectadores, com segundos de discursos de políticos e horas de comentadores até à exaustão. Salvaram-se os debates, quando não se atropelavam e os jornalistas eram pragmáticos, sem ser vedetas. Louva-se a visita a feiras e mercados, instituições e sociedade civil, a mensagem curta, o porta-a-porta, a humildade, a coerência, a convicção.

Perderam os cidadãos, porque verão as suas vidas a andar para trás (sem El Dorado), desbaratando a credibilidade internacional, o crescimento económico sustentado, as medidas de apoio às famílias e empresas, a não resolução dos problemas do povo que é povo, a carga fiscal ao invés da esperança prometida.

Ganhou o PSD (que de social-democrata pouco tem), recorrendo a truques e trocadilhos, apresentando múmias que são donos da palavra sem o dom do conhecimento, recorrendo a oferecimentos sem nexo e incumpríveis, fomentando cenários de ilusões para pobres e esperança para empórios.

Perdeu o PS, que apesar do discurso sólido e mérito, mediante os bons resultados da sua governação (economia, salários, emprego, contas públicas, acção social), não conseguiu libertar-se de casos, casinhos e casões (empolados ou verídicos), nem conseguiu ultrapassar as dificuldades no acesso à saúde, nos direitos dos professores, e na adaptação do processo reiindicativo ardiloso das classes.

O povo tem sempre razão e, mais do que rejeitar a ideologia, recusa ser joguete sem poder de decisão e vota em protesto. Infelizmente, os resultados que o povo irá obter não coincidirão com as promessas de encantar.

A direita, no seu todo, venceu, voltando o marialvismo, a superioridade do classismo, o poder económico como distinção, acreditar em fantasmas, aceitar demagogos e populistas, prometer mundos e fundos.

A esquerda, no seu todo, perdeu, desperdiçando-se as conquistas sociais, sendo todos (a direita, órgãos de polícia criminal, agentes de autoridade manipulados, conflitos de interesses enfeudados) contra um (a esquerda solidária), sofrendo o castigo dos eleitores.

O futuro é já ali. Se todas as promessas fossem cumpridas, o erário público seria condenado à extinção, o Estado social daria lugar ao estado liberal (tipo salve-se quem puder, souber ou sacar).

A alternativa vai ser mais impostos, as classes média e baixa viverem ou sobreviverem, a classe alta mais enriquecer (isenção de IRC, etc.), a contestação social desregular a política e a economia, a emigração jovem continuar.

50 anos depois do 25 de Abril, temos um governo de direita legitimado por incautos, crédulos, ressabiados, jovens a que nada falta, mulheres pelo retrocesso dos seus direitos e homens de negócios impantes, governo que não contribuiu para Abril, que o detesta ou que não sabe o que é. Para um resistente da ditadura, é uma desilusão.

Mas em democracia, o povo decidiu, está decidido. Brevemente, teremos novas eleições. E o povo fará a mudança necessária.

(*) Médico e vereador do PS na CMC