Coimbra  25 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Abril começa em Março

8 de Março 2024

Vai longe a madrugada que transformou a noite de breu em alvorada da liberdade, com a explosão de alegria, a manifestação espontânea pelas ruas e praças, a libertação dos presos políticos do regime fedorento, o esboroar dos fascistóides quer agora erguem a cabeça, à custa de quem lutou contra a ditadura.

Cinquenta anos depois, a biologia do envelhecimento, as agruras da tortura e da opressão, o tempo que nos deixa sem tempo, vai levando os últimos resistentes anti-fascistas que disseram não e estiolando o povo sonhador de uma vida melhor, para a tristeza e desesperança, para os lares e cuidados continuados, para a dependência física e psicológica, para a morte.

Vamos ter eleições legislativas, acto normal em democracia que Salazar e Caetano sonegaram aos portugueses durante 48 anos, e cada um vai optar pela sua ideologia, a sua simpatia, a sua razão, a sua ilusão, ou a sua frustração.

A democracia poderá ter muitos defeitos, mas não há outra forma de a sociedade decidir o que quer para o seu destino, em quem confia para interpretar o seu pensamento, e unir as pessoas porque têm direitos humanos que a todos deveria incumbir defender.

Ser socialista é ser humano. É ter rosto, alma e acção de bem-fazer, bem-querer e bem amar, é ser solidário com quem sofre, é ser voluntário para quem precisa. Não é um slogan de conveniência para obtenção de vantagens, não é uma prática de usufruto pessoal indevido, não é um exercício de poder autocrático.

Ser socialista é acreditar na promoção da igualdade de oportunidades, no desenvolvimento sustentável, na luta contra a pobreza e a exclusão social, nas regras e fronteiras da lei e da justiça que não podem ser ultrapassadas. Não é um panfleto para agradar e iludir, não é um sorriso forçado ou de escárnio, não são beijos e abraços de vedetas, não é aproveitamento de especulação económica desenfreada, não é tráfico da lei e da ordem confundida pela má memória.

 

Fazer regra das excepções

 

Ser socialista é ser pelo futuro de gerações, pela economia solidária, pela saúde geral e universal, pela educação para todos, pelo acesso à habitação digna, garantindo a liberdade e a democracia assumida e responsável. Não é uma forma de atribuição de lugares sem competências, não é economia paralela com ganância e sem controlo, saúde de mercado sem capacidade de pagamento, não é forma de pressão sobre o elo mais fraco.

As excepções confirmam a regra. Mas há forças políticas que fazem regra das excepções, fazendo promessas para depois retirar direitos, delapidando o erário público, querendo o poder pelo poder, citando o 25 de Abril, mas há sempre um mas.

Como pode o povo querer um mundo novo a sério, se entrega os seus sentimentos e emoções, a quem não tem seriedade, credibilidade e experiência de praticar o bem comum?

Quer o povo o reino do Cavaquistão (aquele que nunca se engana e raramente tem dúvidas – vide BPN e seus amigos, BES e companhia, acções e perseguições), o reino da fantasia (a esquerda cujo tempo já passou), o reino da moda (os partidos do folclore, da corrosão e da ambição), o reino da ditadura (bolorenta e rançosa, revivalista para a censura, a tortura, a corrupção, marginalização e a exclusão)?

Somos socialistas, somos humanos. Participámos em Abril antes de Abril, interviemos em Abril em construção, queremos Abril em direitos humanos, em desenvolvimento sustentável, em inclusão social, em futuro presente e novas gerações. Por isso, queremos Partido Socialista.

(*) Médico e vereador do PS na Câmara de Coimbra