Coimbra  17 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A valorização da História local e regional em Midões, Tábua

20 de Abril 2018
João Pinho Escola de Midões

Escola de Midões – palestra sobre História local aos alunos do 3.º ciclo

 

Sete meses após o lançamento da monografia da Freguesia de Midões (Município de Tábua), e meio ano depois da tragédia florestal que se abateu sobre esta comunidade com especial violência, regressei a um espaço que me diz muito do ponto de vista histórico e afectivo.

Um regresso por fortes motivos, acedendo a convite do grupo de história da escola Margarida Fierro Caeiro da Matta, que em articulação com a Biblioteca Municipal de Tábua vem dinamizando um ciclo de palestras sobre história regional e local.

E assim passei a agradável manhã do dia 16, convivendo com os cerca de 100 alunos e respectivos professores do 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade – jovens de hoje, adultos de amanhã – procurando passar a mensagem da missão que há 20 anos me anima: investigar/editar obras sobre as nossas comunidades, em especial sobre as freguesias.

Assinalo, com especial entusiasmo, o facto de tanto em Midões como em Tábua, existir/resistir, da parte dos decisores políticos e institucionais, uma atenção especial sobre uma área da história que duma forma geral vem sendo desvalorizada. Na verdade, grande parte dos municípios tem preferido aplicar as exíguas verbas com a cultura em festivais, festas, beberetes e comeretes: eventos efémeros dos quais pouco fica de aprendizagem ou para memória futura.

Um problema mais extenso, que enferma também o contexto universitário: não temos cursos específicos sobre esta área do conhecimento (com uma ou outra honrosa excepção), nem programas de doutoramento, apesar da nossa tradição municipalista. Talvez seja a hora de repensar o rumo que temos seguido, de afastamento célere das nossas raízes, do nosso ADN. Questões para reflexão mais alargada.

Na sessão realizada na escola de Midões, destaco, também, as intervenções de alguns jovens, já na parte final, reveladoras de como o vínculo às suas origens lhes é querido, os toca afectivamente e os mobiliza a questionar e a problematizar. Livres da timidez do espaço aberto ao debate, esses rapazolas queriam saber mais sobre a história dos antigos concelhos, os quais são, na actualidade, as sedes das suas freguesias de residência: Coito, Vila do Mato ou Touriz.

Nesse momento, os seus olhitos não mentiram: havia sede de sabedoria, interesse a rodos, entusiasmo em desbravar caminhos, em ir na busca das origens. Provavelmente, ao serão, e já na companhia dos seus familiares a ancestral história daqueles povoados terá sido evocada, unindo gerações: avós e netos, pais e filhos, tios e primos.

Estou certo que se conquistaram alguns jovens para a História naquela manhã. Mais difícil é saber se algum seguirá o caminho da investigação, designadamente, da local e regional. É que o país anda ao contrário: em vez de se procurar compreender as raízes, de as discutir e valorizar, andamos ao sabor de experimentalismos, alguns ancorados no individualismo, outros numa globalização neo-liberal, que mais cedo ou mais tarde acabará por se virar contra nós, portugueses de séculos que deram novos mundos ao mundo!

(*) Historiador e investigador

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com