Coimbra  8 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A última ceia

29 de Janeiro 2021

Na vastíssima produção artística e cultural associada à temática religiosa cristã, o episódio bíblico da última ceia assume o lugar cimeiro – embora fosse corrente nos espaços monásticos ganhou especial dimensão após o maravilhoso trabalho de Leonardo da Vinci, para a Igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão.

Naquele intemporal fresco quinhentista, emerge a figura de Jesus, o líder e salvador do povo, rodeado dos seus principais seguidores, os Apóstolos – na antecâmara da prisão e sacrifício aos homens poderosos do seu tempo por discordar e pensar de forma diferente.

Como sabemos este Natal foi diferente para todos nós. Confinados, recolhidos, obrigados a seguir regras inimagináveis há um ano. E foi-o especialmente difícil para os mais frágeis, alguns vivendo dias e dias recolhidos, não só pelos efeitos da pandemia, mas também por doenças e flagelos sociais. Adivinha-se, facilmente, o estado de espírito vivido nos lares deste país: novos, menos novos e idosos viram na ceia natalícia a alegria breve, mas explosiva, de um reencontro familiar adiado, sucessivamente, durante meses por um vírus que teima em dar as voltas à comunidade científica e a desafiar as leis da sobrevivência da espécie humana.

Pais e filhos, avós e netos, primos e sobrinhos aliviaram durante alguns momentos as medidas restritivas. Com ou sem testes, positivos ou negativos, havia um Natal a celebrar, um espaço comum a partilhar, uma mistura de sentimentos e emoções que fez baixar a guarda, aqui um abraço mais efusivo, ali talvez um exagero de beijos furtivos, acolá carinhos mais prolongados. Para os crentes em Cristo ressuscitado, se colocaram os olhares da fé que tudo salva e defende e, no Criador, se depositaram todos os riscos extremos da celebração familiar que não poderia em circunstância alguma interromper uma tradição secular.

Porém, o vírus não conhece limitações familiares, religiosas, afectivas ou quaisquer outras que não sejam as ditadas pelas regras físicas e químicas. Num momento de abrandamento colectivo, na vigilância e controlo de cadeias de transmissão, encontrou, qual personificação do traidor, as condições ideais para tornar o quadro de Vinci uma metáfora arrepiante da quadra que vivemos: muitos foram aqueles que tomaram a última ceia e adormeceram, crucificados como mártires, na expectativa de um novo dia, cuja luz não chegaram a conhecer.

A todos aqueles que vão partindo numa luta desigual, e que enchem páginas e páginas da necrologia na imprensa diária, rendo a minha sentida homenagem.

(*) Historiador e investigador