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João Pinho

A Tuberculose – Perspectiva histórica

23 de Março 2017
Sanatório dos Covões, 1935

Sanatório dos Covões, 1935

 

 

A tuberculose designava-se antigamente como peste cinzenta, sendo, também, conhecida como tísica pulmonar ou doença do peito. É uma das doenças infecciosas documentadas desde mais longa data e que continua a afligir a Humanidade.

É causada, na maior parte das vezes, pelo Mycobacterium tuberculosis (MTB), ou bacilo de Koch, uma espécie de bactéria patogênica que também pode atingir outras áreas do organismo, como laringe, ossos, articulações, pele, intestinos, rins e sistema nervoso. Esta descoberta, deveu-se ao médico alemão, Dr. Robert Koch, que trabalhando na Universidade de Berlim (Microbiologia) identificou o bacilo a 24/03/1882 – passam amanhã 135 anos. Os seus estudos sobre a tuberculose culminaram com o Nobel da Medicina atribuído em 1905.

A tuberculose é considerada uma doença social, pois a sua ocorrência está directamente associada à forma como se organizam os processos de produção e de reprodução social (modo de viver e de trabalhar do indivíduo), assim como à implementação de políticas de controle da doença.

Na primeira metade do séc. XX, a tuberculose aparecia nos jornais como o inimigo número um do povo português, ceifando uma vida por cada quarto de hora que passava. Só após a implantação da República se deram os primeiros passos no sentido de combater a doença, através da Assistência Nacional aos Tuberculosos.

Na nossa região, a luta antituberculosa teve um momento decisivo com a implementação, por Bissaya-Barreto, de vários dispositivos e medidas no âmbito da conhecida Obra Social. Adoptando o figurino francês e utilizando a Junta Geral do Distrito como motor económico-social, aquele médico e cirurgião criou um conjunto de infraestruturas médico-assistenciais que permitiram obter grandes êxitos no combate que empreendeu: relembrem-se o Sanatório Feminino de Celas ou o Sanatório Masculino na Quinta dos Vales, próximo aos Covões; os Preventórios de Penacova (no antigo edificio do Hospital da Misericórdia) ou Vila Pouca da Beira (no antigo Convento do Desagravo); e ainda a intervenção de higiene e salubridade nos Bairros Operários de Coimbra ou a construção do Posto de Vacinação Antituberculoso.

Contudo, o Dispensário Central no Pátio da Inquisição foi o primeiro passo no combate à doença. Inaugurado a 15/11/1928, teve como director o reputado médico Armando Gonsalves. Com o lema «Pelos Tuberculosos, Contra a Tuberculose» o dispensário justificava plenamente a sua existência dois anos, com 1 142 exames radiológicos efectuados e 12 572 fórmulas medicamentosas aplicadas… gratuitamente!

Já neste século e nos países desenvolvidos, criou-se a ideia que por volta de 2010 a doença estaria praticamente controlada ou quase inexistente. Mas a previsão não se confirmou, pois a forte ocorrência de HIV e da AIDS mudou drasticamente o rumo esperado. No ano de 1993, e devido ao número de casos da doença, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de emergência global e propôs o DOTS (Tratamento Diretamente Supervisionado) como estratégia para o controle da doença.

(*) Historiador e investigador

 

O médico e cirurgião Bissaya-Barreto

O médico e cirurgião Bissaya-Barreto

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