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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A simulação de lesões no futebol

28 de Maio 2021

Um médico é treinado para suspeitar de variados tipos de lesões, traduzidas em síndromes (conjunto de sintomas) ou doenças, pelo que no seu pensamento está sempre a possibilidade de existir uma patologia que faça sofrer a pessoa e a sua vontade profissional e humana de poder ajudar a debelar a situação clínica e aliviar o sofrimento do paciente.

Um jogador de futebol profissional é treinado para alto rendimento físico e mental, traduzido em sucesso desportivo com relevo no seu desempenho e destaque na equipa e meios de comunicação (quiçá para melhores contratos), sendo por vezes condicionado na sua acção pela intervenção dos opositores (que também têm a sua função), e provocando contacto físico por vezes agressivo, de forma a frustrar o lance e o resultado da acção adversária, e originando faltas que justificam penalização pelo decisor árbitro.

Deste equilíbrio, entre o passe, a finta, o remate e a técnica de execução do futebolista, e o apoio médico que se aplica também no exercício profissional no desporto, resulta a resolução do episódio de jogo e simultaneamente episódio clínico, independentemente de eventual sanção disciplinar no próprio jogo e (a posteriori) castigo pelas estruturas do futebol, com impedimento de jogar durante um determinado número de partidas e até multas (que são leves, para o padrão de vencimentos dos profissionais).

Por vezes, vemos futebolistas que não respeitam os seus pares, fazendo faltas que são verdadeiras agressões e atentados à integridade física do adversário (que é também colega de profissão), trazendo ao de cima instintos primários irracionais, falta de formação para a ética no desporto e até laivos de malvadez, motivada por recalcamentos ou contas a ajustar contra alguém ou contra o mundo.

Mas também vemos, com demasiada frequência, futebolistas que perante um contacto físico casual ou forjado ou até ausência de contacto, mas perante a possibilidade de ganho secundário (falta, livre, penalty, expulsão do adversário), se atiram para o chão (a “piscina”), dão gritos lancinantes, rebolam no relvado, debitam impropérios, agarram-se à cabeça quando o (eventual) toque foi no tronco, comprimem o joelho direito quando o toque foi à esquerda, coxeiam quando foi o braço (talvez) atingido.

A simulação de lesões no futebol resulta, frequentemente e indevidamente, em atitudes de penalização dos (falsos) “infractores” pelos decisores árbitros, porque são iludidos pelo aparato da situação (não direi que seja pela simpatia pelo clube “lesado” ou pela antipatia pelo adversário…), ou porque o simulador tem uma técnica e destreza tal na mistificação da lesão qual artista de teatro ou cinema.

O simulador poderá até conseguir (diz-se “cavar” em linguagem futeboleira), um livre proveniente da “falta” (e quiçá um cartão amarelo que limitará o outro jogador na sua acção continuada), um penalti para o seu clube (e golo provável como vantagem), até uma expulsão do atleta adversário que enfraquece a equipa (e mais probabilidades de superioridade por desigualdade).

Mas esse simulador, profissional de futebol, estará a faltar ao respeito ao seu colega de profissão (porque não vale tudo, e devia valer a integridade e dignidade do seu adversário que não é um inimigo), e estará a deturpar a capacidade de decisão de árbitros (e até videoárbitros, em caso de dúvida, por desatenção ou imparcialidade, pressupõe-se).

Estará também a enganar o público, no estádio ou ao domicílio (que contribui para a sua promoção e remuneração), e estará a desacreditar o futebol como desporto de massas apreciado pela sua técnica e não pela fraude que falseia percursos de jogo, resultados, troféus e carreiras pouco profissionais.

A simulação de lesões no futebol, tal como a simulação de doença, deveria ser pedagogicamente contestada, por anti-desportiva, radicalmente banida, por falta de decoro e ética, e severamente penalizada, por mau exemplo para os escalões de formação e para promoção da verdade desportiva.

(*) Médico