Coimbra  24 de Julho de 2021 | Director: Lino Vinhal

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A Saúde em Coimbra – O canto do cisne

25 de Junho 2021

A desactivação do Hospital dos Covões em Coimbra é uma decisão tomada no âmbito da progressiva desmaterialização e descaracterização do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nos padrões em que o conhecemos. Se antes da pandemia COVID-19, esta já seria uma medida lesiva dos interesses dos cidadãos, agora torna-se ainda mais evidente, no contexto de emergência de saúde que se instalou. É mesmo uma medida de gestão em contraciclo, uma vez que a filosofia dominante em todas as áreas da sociedade é a humanização dos serviços, sendo claro que tornar o SNS disfuncional por falta de recursos humanos, técnicos ou por concentração excessiva dos doentes, vai agravar desumanização.

Espera-se que a tónica, o escopo, dos serviços públicos em geral e por maioria de razão, do SNS, coloquem as pessoas no centro da decisão, as pessoas devem ser o foco, neste caso os que por doença se tornam mais vulneráveis. A evidência da nossa fragilidade humana tornou-se ainda mais acentuada no último ano, no entanto a incapacidade dos nossos governantes compreenderem o que está em causa, em termos sociais, também cresceu.

No caso do Hospital dos Covões, trata-se de encerrar aos poucos, por asfixia, uma instituição que estava em pleno funcionamento, com resposta adequada e eficaz para a população que servia, impondo a concentração de todos os serviços fundamentais num único hospital, sem que fosse acautelada a assistência aos doentes. Significa que se estão a concentrar todas as valências de dois hospitais num só hospital (HUC), que não apresenta condições de acolhimento, logística ou organização, capazes de albergar todos os doentes. Esta medida para além de mal fundamentada é indigna para os cidadãos, mais ainda para os que não têm recursos financeiros, para poderem optar por hospitais privados, fomentando a iniquidade no acesso à saúde.

Destaca-se ainda o projecto de criação de uma Urgência megalómana nos HUC, para atendimento de 700 pessoas diariamente, sendo evidente que os riscos de propagação de doença em aglomerados de pessoas é enorme, colocando em risco doentes e profissionais. Como prelúdio desta aglomeração, reduziu-se a mínimos indefiníveis a urgência dos Covões, antes de terem sido criadas as condições, na nova mega-urgência, para a substituir.

Com estas medidas arriscamos deixar para trás os menos sãos, mais vulneráveis, com menos recursos. Não acreditamos neste modelo de gestão e organização da saúde. Sabemos que há uma forma mais humana e mais justa para cuidarmos uns dos outros. Temos o SNS, não o vamos entregar!