Coimbra  14 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

A Saúde em Coimbra em tempos de aperto

1 de Abril 2021

Março 2020, Coimbra. Ultima-se o desmantelamento do Hospital dos Covões como Hospital Geral Central, com acentuada redução de camas e de profissionais. Várias enfermarias vazias, a quase totalidade das especialidades desviadas para o HUC, bem como dos respectivos profissionais, amontoados naquele Hospital.

Planeia-se o encerramento da Unidade de Cuidados Intensivos, com “concentração” dessa actividade no outro lado do rio. Mantém-se o Laboratório de Hemodinâmica a trabalhar, mas encerra-se a Unidade de Cuidados Intensivos Coronários e esvazia-se de camas e fecha-se à chave a enfermaria de Cardiologia.

A TAC e a Ressonância Magnética Nuclear continuam a funcionar, bem como a Hemodiálise, mas esta sem o apoio duma enfermaria de Nefrologia. Algumas salas do Bloco Operatório estão fechadas, por falta de pessoal.

Vão sendo alteradas as funções das poucas enfermarias abertas, de semana para semana, aleatoriamente, sem explicação, a não ser, aparentemente, uma falta total de planeamento ou um intuito de desmotivação e consequente afastamento dos respectivos profissionais.

Depois duma primeira tentativa de encerramento do Serviço de Urgência, contrariada pela ARS-Centro, fica uma Urgência menos que básica, com doentes a serem sistematicamente transportados para a Urgência do HUC, e vice-versa.

São anunciados, repetidamente, projectos para utilização das instalações do Hospital, sem coerência duns para os outros, como amontoados de consultas e unidades, fragmentados, desconexos, avulsos, tentando apenas desculpar o encerramento de um dos Hospitais Gerais Centrais de Coimbra, a substituir por uma coisa qualquer… não definida…

Março 2020, Coimbra. Depois da eclosão em Portugal da pandemia pelo SARS-CoV2, e do estabelecimento de três hospitais de referência nacionais para o seu tratamento, no Porto (Hospital de S. João) e em Lisboa (Hospital de Santa Maria e Hospital de Curry Cabral), complementados com tendas e hospitais de campanha, a administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, na perspectiva anunciada dum grande afluxo de doentes, resolve arrepiar o caminho seguido até aí e transformar o Hospital dos Covões num hospital de referência para a pandemia.

Enfermarias encerradas são reabertas, camas retiradas são colocadas de novo, todas as enfermarias em funcionamento vão sendo utilizadas para a covid-19, as camas dos Cuidados Intensivos estendem-se às salas de operações e às de recobro cirúrgico, o Serviço de Urgência fica alocado em exclusividade aos doentes com covid-19 ou suspeitos de o serem, sendo todos sem excepção para lá enviados pela Saúde 24 e pela Urgência do HUC, para diagnóstico e tratamento conforme necessário. Profissionais são enviados do HUC para o Hospital dos Covões, muitos deles que antes tinham sido dele desviados para o HUC.

O empenho de todos foi notável, a eficácia também, movimentando-se, e interagindo, numa estrutura hospitalar de características adequadas, bem dimensionada, e que voltou instantaneamente a ser o grande Hospital que sempre foi.

Março 2021, Coimbra. Ao fim dum ano de pandemia, e depois duma segunda vaga avassaladora entre nós, inundando hospitais e assoberbando agências funerárias, em que Portugal se tornou no país do mundo com os maiores números diários de novos casos e de mortes por covid-19 por milhão de habitantes, no CHUC tiveram de abrir camas também no HUC para esses doentes, ocupando enfermarias de várias especialidades. Então por isso – palavras ligadas ao Conselho de Administração o Hospital dos Covões não foi suficiente para responder a todos os doentes com covid-19?! Não teve capacidade?! Ou foi o Conselho de Administração do CHUC que foi obrigado a reactivar o Hospital dos Covões um ano atrás porque o HUC sozinho não teria capacidade?!

Ou foi o CA do CHUC que teve de interromper o desmantelamento e encerramento do Hospital dos Covões, que estava a levar a cabo, para poder tratar os doentes com covid-19?! Ou foi que o Hospital dos Covões, quando recebeu os doentes às dezenas, depois às centenas, estava quase esvaziado de recursos humanos e de meios, com enfermarias vazias, algumas literalmente, sem camas e fechadas à chave?! E que foi com base nisto que teve de se reorganizar?!

Foi em desespero de causa que o CA do CHUC teve de fazer o feito por não feito, e manter, e reactivar, os Covões como Hospital (que, mesmo assim, reocupado não foi a mais de dois terços da sua capacidade). E que foi partindo daquelas condições de quase desmantelamento, de que tanta gente protestou nas ruas, nas redes sociais, nos jornais, na Assembleia da República, foi dessas condições que o Hospital dos Covões conseguiu dar uma resposta brilhante ao que lhe foi pedido! Como grande Hospital que sempre foi! Mostrando, para além do mais, que Coimbra não sobrevive na Saúde com apenas um Hospital Geral Central. Ou será que querem só um, mas contando sempre com “o outro”?

Março 2021, Coimbra. Mecê dos cuidados estabelecidos, e sobretudo do confinamento, e da evolução da pandemia, os novos casos em Portugal reduziram-se muito, permitindo uma folga marcada nos hospitais, com uma quebra importante da mortalidade. E logo soam vozes no CHUC aventando, como há um ano atrás, imediatamente antes do início da pandemia, o encerramento dos Cuidados Intensivos no Hospital dos Covões… Retomando-se, aparentemente, o caminho atrás descrito, interrompido pelo aperto pandémico: estabelecer apenas um Hospital Geral Central em Coimbra, em Celas, ficando o Hospital dos Covões para “outra coisa qualquer”… Como se nada se tivesse passado. Ou, quem sabe, até que surja outra pandemia… ou uma terceira vaga desta… Ou se perceba o atraso no diagnóstico e tratamento de tanto doente fora da covid-19… Mas será possível uma tal visão?! Ou falta dela?!

Passado o aperto, com a resposta notável que o Hospital dos Covões foi capaz de dar, reconhecida por toda a população, doentes e não doentes, juntamente com o HUC, quando será que se deixa de querer atrofiar a Saúde em Coimbra em Celas, e se lhe permite um golpe de asa e de libertação e progresso, tal como o que deu em 1973 e levou a cidade a ser uma “capital da Saúde”?!

Quando vai a Assembleia da República responder à Petição Pública pelo Hospital dos Covões? Quando se devolve a autonomia ao Hospital dos Covões?! Quando é que o Governo lhe reconhece a importância e a necessidade como Hospital Geral Central de Coimbra e da Região Centro?! E que tal se Coimbra exigisse aquilo a que tem direito, em prol da sua Saúde e da Saúde na Região Centro?!

(*) Cirurgião e Professor Universitário