Coimbra  25 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A rua do Corpo de Deus: apontamento histórico

1 de Junho 2018

 

17 - Rua do Corpo de Deus (perspectiva descendente)

A rua do Corpo de Deus (perspectiva descendente)

 

17 - Rua do Corpo de Deus A capela de Nossa Senhora da Vitória

A capela de Nossa Senhora da Vitória

 

Comemorou-se, ontem, o dia de Corpo de Deus (Corpus Christi), feriado religioso católico realizado na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, o qual por sua vez, recai no domingo seguinte ao de Pentecostes.

A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII: primeiro, quando o cónego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica (futuro Papa Urbano IV) teve visões de Cristo demonstrando desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque; mais tarde, por volta de 1264, numa cidade próxima de Orvieto onde o Papa tinha a sua corte, ocorreu o Milagre de Bolsena, em que um sacerdote celebrante da Santa Missa, no momento de partir a Sagrada Hóstia, viu que dela saía sangue que empapou o corporal (pano onde se apoiam o cálice e a patena durante a missa).

O Papa Urbano IV determinou que os objectos milagrosos fossem trazidos para Orvieto em grande procissão em 19 de Junho de 1264, sendo recebidos solenemente por Sua Santidade e levados para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico de que se tem notícia. A festa de Corpus Christi foi oficialmente instituída também por Urbano IV com a publicação da bula Transiturus em 8 de setembro de 1264.

A rua do Corpo de Deus

A rua do Corpo de Deus, em Coimbra, é o testemunho perene da antiga celebração, onde terá existido a Judiaria Velha. Uma artéria que liga a “alta” com a “baixa” da cidade e que teve ao longo dos tempos diversas designações: rua do Príncipe, rua de Pedro Cardoso e também rua de Corpus Christi. Por deliberação do Município de 11-VII-1929 foi a rua reintegrada na velha denominação de rua do Corpo de Deus que ainda conserva, estendendo-se de sudoeste para noroeste, da rua de Ferreira Borges até ao ponto de convergência da rua de Martins de Carvalho com a rua do Colégio Novo.

Referências à existência da Judiaria na rua do Corpo de Deus colhem-se, por exemplo, na carta de doação dos Banhos Reais – no local onde se presume que tenha sido erguido o Mosteiro de Santa Cruz – outorgada por D. Afonso Henriques, em Dezembro do ano de 1130 ao arcediago D. Telo, um dos fundadores do mosteiro crúzio.

A rua do Corpo de Deus encerra uma curiosa história, fixada no Agiológio Romano no qual se menciona uma ocorrência divina no ano de 1361. Nele se relata que o judeu Joseph «…tentou subornar um sacristão da Sé, a fim de lhe ceder algumas partículas do vaso sagrado; conseguindo o seu intento, trouxe cinco para casa, pôs ao lume uma certã com azeite e logo que este chegou ao estado de ebulição lançou-lhas dentro. Passados instantes, as partículas saltaram para fora em forma de cruz; lançou-as de novo no azeite, e elas segunda e terceira vez, lhe voaram inteiras; até que, descoroçoado e não lembrado de que quem operava era a Providência Divina, foi soterrá-las defronte num lugar o mais repugnante. Chegando pouco depois aos ouvidos de D. Vasco, então Bispo de Coimbra, que naquele imundo lugar jaziam as sagradas partículas, lá se dirigiu imediatamente com o cabido, corporações religiosas e irmandades do Santíssimo, que em procissão solene as levaram e foram depositar na mesma igreja onde haviam sido roubadas».

O judeu pagaria bem cara a ousadia, uma vez que foi enforcado no ano seguinte, tendo-se erguido, em desagravo e no próprio local em que foram encontradas as partículas consagradas, uma igreja ou ermida sob invocação do Corpo de Deus ou de Nossa Senhora da Vitória, mandada edificar ou acrescentar à custa de Ana Afonso, mulher que por testamento de 1367 ordenou que a sepultassem à porta da ermida, nela instituindo um hospital e albergaria com quatro camas, candeia e água para agasalho de quatro pobres.

Ao sacristão terão sido infligidas penas severas que se desconhecem, enquanto o bairro judaico terá dado lugar a uma rua, pois não mais figura nos documentos como a judiaria da freguesia de Santiago.

A capela de Nossa Senhora da Vitória, regular poiso de pombas e abrigo de gatos, apesar de várias profanações, chegou até aos nossos dias como Casa de Fados e Canção de Coimbra do Centro Cultural “à Capella”, após reabilitação que culminou em 2004 com a atribuição do prémio municipal Diogo de Castilho aos autores da proposta: Ângelo Ramalhete, Maria Ataíde e Pedro Taborda.

Lamenta-se apenas que a rua do Corpo de Deus, à semelhança de tantas artérias históricas de Coimbra, tenha sofrido sangria populacional e perdido a pujança comercial de outrora – dinâmica tão própria dos ancestrais bairros judaicos.

(*) Historiador e investigador

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