Coimbra  15 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Manuel Costa Almeida

A propósito da reunião que Maternidade para a Região Centro

24 de Setembro 2019

Pelo colectivo Arquitectos da Região Centro (ARC) foi levada a cabo uma reunião com este tema, de grande oportunidade e que muito se deve agradecer, em nome de Coimbra e da Região Centro. E do País.

Da mesa redonda em que tomei parte, sobressaiu que a actual administração do CHUC deu o Hospital dos Covões como morto enquanto Hospital Geral Central, e passou a encará-lo como um anexo do HUC, mas, note-se, um anexo sem o qual esse Hospital não pode viver. Continua a existir, mas como Hospital Geral, não. Quer dizer, despreza-se olimpicamente todo o dinheiro que em 46 anos de existência lá foi aplicado, incluindo os edifícios construídos há 12 anos (o do HUC foi há 32), com a Reanimação, a Urgência, o Bloco Operatório, a Hemodinâmica, a Hemodiálise, e todo o esforço que gerações de profissionais lá dedicaram. Para fazer dele um dos dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra, a par do Hospital da Universidade de Coimbra, pleno de capacidade clínica, técnica, tecnológica, de investigação e de ensino, que nunca desmereceu nada do outro, mas com um elevado e entranhado humanismo no lidar com os seus doentes. E que serviu para pôr a margem esquerda desta cidade no mapa, e para promover o seu desenvolvimento, no que acabou também por ter êxito, pelo dinamismo que se vai vendo deslocar para o lado esquerdo do rio.

Quando Bissaya Barreto inaugurou o Hospital dos Covões, disse : “Desejo um Hospital junto da cidade e não dentro da cidade, um hospital implantado num terreno suficientemente vasto e desafogado, que permita, se necessárias, ulteriores ampliações(…). Como se vê, tudo diferente, tudo contrário ao que a douta Faculdade escolheu para o seu Hospital.”

E aquele centralismo criticado por Bissaya não foi só com o Hospital, passou-se com o próprio desenvolvimento da Universidade. Quando se resolveu ampliar e modernizar as suas instalações, em meados do século XX, mantiveram-nas no centro da cidade, no meio das casas – destruindo muitas, aliás, para poder crescer -, no meio do trânsito, com acesso difícil e estacionamento quase impossível. Passadas apenas duas dezenas de anos, reconheceu-se o que Bissaya tinha visto logo: não podia crescer mais, teve de sair para fora do centro, fragmentada em vários pólos e mais uns bocados, espalhada pela cidade. Tivesse mantido o núcleo central e crescido para a periferia da cidade, que é por onde as cidades crescem, haveria agora um polo central e um polo periférico, com um campus universitário capaz do desenvolvimento que fosse preciso.

Assiste-se em Coimbra ao caminho inverso ao de Bissaya Barreto: uma tentativa insana de voltar a meter tudo dentro do Hospital da Universidade, no centro da cidade, no meio das casas, e do trânsito, com acesso difícil e estacionamento quase impossível. Ignorando ostensivamente o campus de saúde criado perifericamente por Bissaya e desenvolvido durante 46 anos.

Da fusão do Centro Hospitalar de Coimbra com o HUC quis-se não um Centro Hospitalar, do qual só tem o nome, mas um Hospital único, corporizado no Hospital da Universidade de Coimbra. Ao qual se acrescentam uns anexos, porque nele não cabe, nem de perto nem de longe, tudo. E o que lá se acumulou nos sete anos de fusão é já manifestamente demais, como se pode ver: a sua superlotação, em doentes, profissionais, visitas; os doentes das várias especialidades espalhados por enfermarias diferentes e variadas, por falta de camas; as muitas horas de espera na Urgência; os meses e anos de espera por uma primeira consulta; os meses e anos de espera por alguns exames: os milhares de doentes com exames à espera de serem marcados; o número crescente dos seus doentes que não são lá estudados e tratados mas sim nas clínicas da zona – que se têm multiplicado -, e em clínicas e hospitais fora de Coimbra. Culpa dos médicos do HUC? Muitos dos quais foram para lá levados do Hospital dos Covões? Não, de modo nenhum! Antes há que louvar o esforço extra que têm de fazer diariamente face à acumulação de tudo o que lhes caiu em cima!

Mas admitir a existência, como nos últimos 46 anos, dos dois Hospitais Geras Centrais de Coimbra, um na margem direita, no centro da cidade, outro na margem esquerda, na periferia da cidade, este com possibilidades fáceis de acesso, crescimento e desenvolvimento, é coisa que não passa pela cabeça desta administração do CHUC! Não, Hospitais que nesses 46 anos foram a referência da Zona Centro, quando Coimbra era a “capital da saúde”, foram ambos destruídos por uma fusão intempestiva, sem plano até hoje!

Vieram então a esta reunião dar como morto – como Hospital, não como anexo do outro… – um Hospital que continua bem vivo e a trabalhar, com enfermarias fechadas, é verdade, mas com seis Serviços ainda lá instalados (apesar da “sangria” continuada…), bloco operatório (que em instalações continua a ser muito melhor que o do HUC, 20 anos mais velho), Reanimação (que consta que querem encerrar… apesar de continuar a receber doentes, do HUC e das duas Maternidades…), Urgência, Unidade de Cuidados Intensivos Coronários, Unidade de Hemodinâmica, cardíaca e vascular, Hemodiálise, TAC, Ressonância Magnética Nuclear, Consultas Externas (muitas e variadas), Laboratório de Audiologia, Centro de Implantes Cocleares, Laboratório do Sono, Instituto de Sangue no seu perímetro, tal como a Escola de Enfermagem Bissaya Barreto e a Escola Superior de Tecnologias da Saúde.

Dando tudo isto como morto, resulta que para eles a única localização possível da nova Maternidade é junto – ainda não se sabe bem aonde… – do outro Hospital. Nem que para tal se tenham de fazer obras faraónicas para conseguir o estacionamento necessário – com silos subterrâneos ou aéreos, depois se verá… -, massacrar a Câmara Municipal para resolver o problema do acesso rodoviário – que já tem a dificuldade que se conhece, o que fará depois…- , destruir o heliporto e reconstruí-lo depois – ainda não se sabe bem onde… -, amontoar mais um edifício no meio dos outros, para que as parturientes possam mostrar aos seus recém-nascidos, da janela da enfermaria para a janela do edifício em frente, o que um Hospital não deveria ser…

Tudo, mas tudo, serve para que o Hospital da margem esquerda deixe de o ser! Utilizar todo aquele terreno, de graça para o erário público, para construção duma Maternidade junto ao Hospital, está fora de questão! Facilitar a vida à Câmara Municipal nas suas preocupações de trânsito e de acessos rodoviários, é que não! Poupar muito dinheiro na construção de estacionamentos, nunca! Ter uma Maternidade num espaço verde, com ar puro, nem pensar! Que não seja limitada na sua capacidade pelas construções envolventes, eventualmente vindo a limitar-lhe o acesso por falta de vagas – ou ter que misturar as grávidas e parturientes no pool de doentes “diversos” que são espalhados pelas enfermarias do Hospital… -, isso é para esquecer! Não, há que recusar que Bissaya Barreto tinha razão! Isso só se verá daqui a mais uns anitos… Mas quem estiver por cá, numa cidade com a Saúde cada vez mais miniaturizada, que se entenda!

(*) Médico e Professor Universitário

 

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