Coimbra  31 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

A prima Eutanásia…

29 de Maio 2018

Anda um burburinho na AR por causa da prima Eutanásia. Está para breve a decisão.

Anda um frenesim, com publicidade e tudo, nas televisões com figuras meias-públicas e/ou meias-semi políticas, também por causa da mesma prima.

A prima Eutanásia não pode ser tratada de ânimo leve, de uma penada, de um assopro, de e/ou com um debate parlamentar apressado e de um tiro…

Não se aborda uma prima destas de um dia para o outro, sem diálogos, sem ouvir técnicos do sector da saúde e especialistas na matéria, sem se perceber o que está em causa e sem se entender o que é viver e morrer. Escutar, e também, pessoas da ética médica e das ciências da vida.

Morrer tem de ser um acto solidário, também, como quando se vive.

Morrer não pode ser um acto solitário como quando se vive, também…

Morrer tem de ser com e em dignidade.

Morrer não pode ser, no tempo de hoje, com tanta medicina, equipamento e aparelhos que nos prolongam a existência humana, sem sofrimento, um acto egoísta e uma despedida sem glória e sem ponta de algum estoicismo pessoal.

Isto de não conseguirmos perceber que a nossa vida deve ser sacrifício pessoal, profissional, social, humano, de vida e até da nossa saúde não casa com a dignidade de cada um e não se mostra, em termos de quem acredita e tem fé, compatível com a crença da confissão religiosa que é de nossa orientação. “Não matarás”… E onde fica, na classe médica, o Juramento de Hipócrates, neste particular ?

Não prescindo de transcrever para melhor entendimento: “Reconhecendo que “a relação entre os médicos e os doentes está fortemente ameaçada”, o Dr. Miguel Guimarães, citando o Professor Daniel Serrão, que já tinha alertado para o perigo da funcionalização da medicina, disse ainda: “a Ordem dos Médicos não pode aceitar este caminho como uma inevitabilidade (…). Estaríamos a trair a matriz ético-filosófica da nossa profissão e o seu espírito humanista, do qual não prescindimos”. Também chamou a atenção para a necessidade de uma correcta formulação legal do acto médico: incluir práticas contrárias às exigências da profissão acarretaria um “verdadeiro retrocesso civilizacional e científico”. Voz crítica, ainda, o Cardeal Patriarca de Lisboa e o Bispo do Porto. Vozes de censo e de maturidade.

Temos que ter fiéis da balança da vida…

Uns, os terroristas de certos califados, numa interpretação desajustada do Corão, matam para – dizem – caminharem para o paraíso celestial e para se libertarem.

Nós, as pessoas de atitude e de amor ao nosso ALTO, não acreditamos na prima Eutanásia. Não a queremos como familiar. Não a respeitamos. Não a saberemos receber no nosso seio.

Nós, os que acreditamos na vida para além da morte e não somos materialistas, queremos uma morte assistida e decente.

Afastem de nós a prima Eutanásia. Deixem-se de brincadeiras de mau gosto. Matar gente nossa, por razão do sofrimento – hoje quase não existe – é assassinar quem pode ter vida.

A prima Eutanásia servirá para casos bicudos, para situações extremas e para assombrações de saúde de elevada gravidade.

Cá por mim dispenso a prima Eutanásia e toda a procissão de forças que gravitam em torno dela para a tornar eleita numa sociedade familiar e local que, antes de tudo o mais, quer o tema tratado com a maior seriedade cívica, humana e social.

A banalização da morte é um acto desumano, uma atitude anti-civilização.