Coimbra  13 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A Política e a Saúde, em contraciclo

29 de Março 2021

Em semana da Páscoa atípica por força da pandemia e fraqueza humana, atravessamos um tempo de relativa acalmia na opinião pública (com sondagens favoráveis ao PS), selecção dos candidatos autárquicos por todo o país, actividade política centrada no PRR e novo Quadro Comunitário de Apoio (com transparência), e agitação pela promulgação dos apoios sociais alargados pelo Presidente da República (aprovados pela oposição).

Comprova-se assim que o segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa será diferente do primeiro, dando a mão à oposição, e que o PS terá de se convencer que não tem maioria absoluta no Parlamento e que a sua esquerda também existe.

A pandemia prossegue com a terceira vaga em extinção e a campanha de vacinação com melhor imagem pública pós-controlo militar, mantendo alguns erros da responsabilidade do Ministério da Saúde, que não faz tudo bem.

A prioridade na vacinação (após os profissionais de saúde e os lares) é difícil de compreender, quando se mantêm em espera centenas de milhares de idosos e doentes (os que contribuem para a maior taxa de mortalidade), e se vacinam pessoas jovens e saudáveis, integrados nas corporações com poder reivindicativo, porque afinal todos contactam com todos e todos têm risco (mais para si do que para os outros, dada a benignidade comum da infeção SARS – CoV 2 nas crianças).

A definição de profissional de “saúde” alargou-se sem limites, cada vez mais há exigências de prioridade na vacinação por setor de profissão ou emprego, e esperamos que os jovens saudáveis vacinados prioritariamente não venham a lamentar a doença (e a morte) dos seus pais (doentes) e dos seus avós (doentes e idosos). Assim, este país solidário não é para idosos nem para doentes…

No entanto, a campanha de vacinação intensificada leva os cidadãos a desvalorizar a acção política e a valorizar a sua saúde, a divulgação dos candidatos partidários leva a alguma agitação e mobilização mais local menos nacional; em perspectiva está o Verão do nosso contentamento, e a (eventual) remodelação governamental pós-Presidência da UE vai creditar o PS (se for feita) ou ser alvo de críticas e ataques ao PS (se não for feita).

Mas há riscos a correr: a política de saúde favorável aos cidadãos não está garantida (4.ª vaga da covid-19, insuficiência da prestação de cuidados não-covid hospitalares e em CSP, baixa taxa de diagnósticos e alta mortalidade por doenças não-covid, estilo de superioridade e grau de conhecimento com inferioridade, sem assessorias da ciência que não sejam apenas bajuladoras, pela tutela da saúde); escândalos tipo EDP, debate sobre sociedades secretas, dissidências político-partidárias na sequência das candidaturas autárquicas, triunfalismo versus pessimismo perdendo-se o realismo.

Em Coimbra, Coimbra é obra e está em obras! O trabalho desenvolvido pela autarquia socialista está à vista de todos (excepto para os maledicentes), a transparência tem dominado, através da acção imediata em caso de crise e da divulgação, há vários “estaleiros” na cidade (e outros virão) não por ser ano eleitoral, mas na sequência do Programa Eleitoral 2017, da execução do Plano Municipal e do tempo necessário para a realização de obras com absoluta e impoluta legalidade.

Mas em Coimbra, também há riscos para todos: o adversário assumidamente de direita é muito forte, com capacidade demagógica elevada, tem grande penetração na elite coimbrã, o sentido de mudança é atractivo para quem anda a leste do paraíso (apenas iria ser inaugurado pela direita o que a gestão socialista produziu), há alguns anticorpos quanto à liderança da candidatura socialista (o obreiro), a campanha eleitoral das várias forças políticas na Década 2030 ainda não é evidente no estilo (sério ou fraldisqueiro), nas propostas (realistas ou manipuladoras) e nas críticas ao adversário (construtiva ou destruidora, com verdade ou mentirosa, cordata ou com ataque de carácter).

Gostaríamos de dizer que está tudo bem, e não há contraciclo. Mas não é verdade. Os desafios e os riscos, da responsabilidade dos decisores e dos cidadãos, podem levar à dissociação entre a saúde e a doença, entre o endividamento e o apoio social, entre a estagnação e o Desenvolvimento Sustentável. Vamos acreditar (ainda) nos decisores e nos cidadãos.

(*) Médico e deputado do PS da AM de Coimbra