Coimbra  24 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

A peste e o prémio

12 de Junho 2020

No ano 19 do século XXI o mundo foi visitado por mais uma “peste”, neste caso uma pandemia por um vírus respiratório, um novo coronavírus chamado SARS-CoV-2 (Coronavírus 2 da Insuficiência Respiratória Aguda Grave), que provoca a “doença pelo coronavírus de 2019”, ou covid-19. Esta afecta fundamentalmente o aparelho respiratório, mas atinge também outros órgãos e sistemas, e pode redundar em falência orgânica múltipla e morte. A pandemia teve início numa evoluída e cosmopolita cidade chinesa, Wuhan, de 11 milhões de habitantes, aparentemente pela passagem dum vírus de animais selvagens para a espécie humana, onde se tornou patogénico.

Curiosamente, a pandemia atingiu primeiro um conjunto de países do que podemos chamar primeiro mundo, e da Europa, muito provavelmente por serem aqueles mais visitados por pessoas vindas, desde logo, da China, e, depois, dos vários locais que iam tendo mais casos. Poupando, assim, relativamente, os países com menos intercâmbio de viajantes, a outros pôs rapidamente à prova os respectivos sistemas de saúde, pela elevada taxa e rapidez de contágio e a gravidade que podia revestir nalguns doentes, sobretudo mais idosos e mais fragilizados. O elevado número de casos ao mesmo tempo, com necessidade de cuidados intensivos em bastantes, provocou um quase caos sanitário em países como Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, chegando ao ponto de aí criarem uma idade limite para os doentes poderem ser admitidos em unidades de cuidados intensivos, a fim de lhes reduzir o número, adaptando-o às vagas!

A evolução naqueles países serviu de aviso para os outros, sobretudo aqueles que viam também crescer o número de casos. Portugal foi um deles, e foram tomadas várias medidas, como a quarentena dos infectados e suspeitos de infecção, o distanciamento físico, o confinamento, a lavagem das mãos, o uso de máscara em espaços fechados e com muitas pessoas. Os doentes aumentaram rapidamente, e se muitos deles puderam ficar em casa, confinados, outros tiveram de ser internados, em enfermarias ou em unidades de cuidados intensivos. A ventilação artificial é, nestes últimos, muito importante, e equacionou-se desde logo a necessidade de aumentar o número de ventiladores disponíveis, adquirindo mais e disponibilizando para o efeito os das salas de operações e dos recobros cirúrgicos. Para isso, salas de operações tiveram de fechar, e as enfermarias foram sendo ocupadas por infectados com o vírus e passaram a ser um foco de contágio. Nalguns hospitais, cheias as camas, houve que armar tendas à entrada ou colocar macas em pavilhões desportivos, e nalguns países chegou-se mesmo a construir hospitais de campanha.

A resposta do Serviço Nacional de Saúde foi capaz, mercê da sua organização, mas depressa se percebeu tê-lo sido por se terem concentrado os recursos numa única doença: a covid-19. Tudo o mais foi sendo deixado para trás, com salas de operações fechadas, consultas vazias, exames por fazer, hospitais com enfermarias bloqueadas por doentes infectados. Numa doença que afectou até agora apenas cerca de 3 em cada 1000 cidadãos portugueses, um sinal objectivo de eficiência do SNS seria ter combatido a epidemia sem deixar para depois as outras patologias, pelo menos aquelas mais urgentes e que podem levar a um aumento de mortes a curto ou médio prazo, embora sem a contabilidade diária dos mortos que agora se faz… Isto é, seria ter uma folga na resposta pública às doenças de modo que quando houvesse um aumento brusco de doentes eles pudessem ser atempada e adequadamente tratados, sem se ter de recorrer à almofada que vai permitindo dizer que o serviço público de saúde é eficiente: as listas de espera! Escoando-se estas para o privado por conta do público…

Um caso particular foi o de Coimbra, porque, como referência hospitalar da Região Centro, tem há quase 50 anos dois Hospitais Centrais, embora agora unidos numa fusão imposta pela troika em 2011. Essa “fusão”, dando um chamado Centro Hospitalar, tem sido, ao contrário, entendida pelo seu conselho de administração como a criação dum único hospital, junção de dois em um, e o que tem sido tentado é fazer desaparecer um (Covões) para ficar só o outro. Pois felizmente que não o conseguiram, e o Hospital dos Covões, apesar de fortemente esvaziado de recursos humanos e de Serviços, mantém a sua estrutura de hospital e a sua tecnologia de Hospital Central (também por necessidade do HUC de a ela recorrer…), porque foi isso que tornou possível em Coimbra uma solução única nesta pandemia: reservar um Hospital para Hospital de Referência, mantendo o outro Hospital da cidade liberto para outras patologias e tratamentos. Ficaram separadas as águas (e as infecções), e para ter as camas necessárias para os infectados bastou esvaziar as enfermarias dos doentes que lá estavam e reabrir enfermarias que, inexplicavelmente, estavam fechadas. E o pessoal do Hospital, juntamente com outro que o veio momentaneamente repovoar, depois de acumulado no outro, conseguiram brilhantemente debelar o surto da doença.

Seria previsível que o conselho de administração, face a esta ocorrência, percebesse finalmente a importância de ter recebido dois Hospitais com capacidade para tratar doenças complexas, como esta, podendo um ser reservado para o efeito, deixando o outro livre para o restante trabalho médico. Mas não, pelo contrário! Mal se nota um abrandamento da pandemia, logo quer fechar o que foi aberto, mais o que estava aberto e foi esvaziado para internar os infectados. E mais, propõe-se encerrar liminarmente o Serviço de Urgência, embora depois se contente, para já, em passá-lo a urgência básica, igual à urgência das clínicas privadas da cidade. Será que pensa que a pandemia já acabou?… Será que acha que os outros doentes, os que antes da pandemia enchiam as Urgências dos dois Hospitais, e inundavam a do HUC, ao ponto de gerar tempos de espera por atendimento de 8 e 10 horas, desapareceram todos com a covid-19?! Será que não entende que os doentes agora não vão aos Hospitais pela mesma razão que não vão aos restaurantes e aos cinemas? Por medo do vírus?… Mesmo os realmente, e muito, doentes?…

Em vez de se reconhecer a vantagem de ter dois Hospitais, que foi óbvia nesta situação, insiste-se cegamente na destruição de um!! Como diz o povo, “mais vale cair em graça que ser engraçado!”… Neste caso, “se não caíste em graça, de nada te vale ser engraçado”…

O Senhor Presidente da República falou dos que merecem um prémio pelo que fizeram pela comunidade nesta “peste”. Concordo que merecem, não só pelo resultado mas, e sobretudo, pelo esforço que fizeram. Mas com os que o fizeram, denodadamente, no Hospital dos Covões, o Senhor Presidente escusa de se incomodar: o “prémio” já lhes foi dado pelo conselho de administração da instituição onde trabalham…

(*) Médico cirurgião, Professor da Faculdade de Medicina de Coimbra, ex-Director de Serviço de Cirurgia do Hospital dos Covões-CHUC