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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A pedra quinhentista da Casa da Eira (Botão)

1 de Junho 2017
17 - Pormenor da pedra quinhentista da Casa da Eira

Pormenor da pedra quinhentista da Casa da Eira

 

A História Local e Regional é um manancial de riqueza, grande parte por explorar. E, como há dias escrevi, a História faz-se de permanente reconstrução. Depois de ter editado em 2002 a Monografia da Freguesia de Botão, nunca me deixei de interessar pela terra, suas gentes e património, continuando, quando posso, a investigar e reunir dados adicionais a esse projecto que ficou para a vida.

Quando há tempos a amiga Regina Oliveira me desafiou a dar opinião sobre uma pedra especial que estava em poder da família há décadas, não imaginava o que iria encontrar. Nem mais, nem menos do que uma pedra quinhentista, obra de fino recorte de canteiro de mérito, aplicada numa construção tipicamente do mundo rural, também ela com característica peculiares, que merece um estudo de cuidado, mais não seja pelo exemplo que é de um determinado tempo e modo de construir – a Casa da Eira.

A referida pedra, que tem a particularidade de possuir um motivo florístico raro – a rosa albardeira, abundante na região, especialmente, na Serra do Alhastro que a Cimpor tem consumido – foi aplicada sobre o vão principal da referida casa, articulando-se com a restante cantaria.

Datado o achado e reconhecido o seu valor, importava perceber como a pedra ali foi parar, tarefa que se tornou fácil, dada a colaboração da família: fôra trazida e aplicada por um antepassado, já desaparecido do mundo dos vivos, Lourenço Rodrigues.

Este homem, nascido em 1898, teve uma curiosa história de vida: combatente e prisioneiro da I Guerra Mundial, regressou à terra natal onde foi regedor e membro da Comissão de Culto da Igreja de Botão, a qual promoveu as obras de restauro da mesma (1941-1944). Mais tarde, desempenhou as funções de presidente da Junta de Freguesia (1964-1971), falecendo no último ano de mandato quando contava 73 anos de idade.

Lavrador abastado, e empreendedor, teve uma grande casa agrícola que dava trabalho local, tendo também explorado uma mercearia na povoação. A “Eira” era uma das suas várias propriedades, onde edificou a casa a que nos referimos e que servia de celeiro.

Dada a ligação desta figura local à vida religiosa de então, não é difícil identificar a origem provável da pedra quinhentista: ou veio do desaparecido Paço Manuelino aquando das derrocadas que o mesmo começou a sofrer a partir dos anos 50 do séc. XX e que conduziram à sua completa ruína; ou da Igreja Paroquial de S. Mateus no âmbito da reforma de que foi alvo nos anos 40 da mesma centúria.

Saudemos pois, a família Oliveira não só pela conservação deste relevante vestígio artístico e arqueológico, mas também pelas preocupações de estudo, preservação e valorização.

(*) Historiador e investigador

17 - A Casa da Eira - Botão

A Casa da Eira – Botão