Coimbra  25 de Fevereiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A pandemia não explica tudo

5 de Fevereiro 2021

Caminhamos, a passos largos, para um ano de sobrevivência no estado pandémico. Olhando, friamente, para aquilo que tem acontecido é uma evidência incontornável que muito vem falhando em termos de saúde pública no nosso país.

Não possuo competências técnicas ou requisitos científicos para avaliar se as medidas que o nosso Governo tomou, têm sido as mais bem ponderadas ao nível das políticas de saúde fundamentadas nas recomendações nacionais e internacionais.

Porém, é difícil pensar o contrário: quando vejo hospitais covid e não covid à beira da ruptura, filas intermináveis de ambulâncias a aguardar nas urgências, transferências de doentes para a ilha da Madeira e outros Estados da EU, números galopantes de óbitos e casos de infecção, montagem apressada de hospitais de campanha, opiniões críticas de prémios Nobel e honoris causa – motivos mais do que suficientes, para colocar a máscara no rosto e passear de forma higiénica para aliviar a tensão que me percorre o corpo e a mente.

Concluo, naturalmente, que a pandemia não explica tudo aquilo a que temos assistido: não me parece que ao longo dos anos tivesse existido uma preparação das instituições sanitárias e assistenciais para uma epidemia à escala nacional, quanto mais global; acredito que exista um défice imenso entre a teoria e prática, a formação e o conhecimento; receio que as preocupações salariais das administrações hospitalares tenham superado as de serviço e de prevenção; que a defesa do SNS tenha servido para suportar jogos políticos de bastidores; que na verdade estejamos a agir por impulso e não por razão.

Bissaya-Barreto ideólogo de uma vastíssima Obra Social que o pós 25 de Abril não soube preservar e reduziu a escombros – confundindo o homem político com o homem médico-cirúrgico – dizia que “para prover é preciso prever”, lição colhida nas leituras demoradas de Auguste Comte.

Poderia citar outros exemplos, mas creio que este basta para elucidar aquilo que mina o nosso sistema hospitalar: no topo das preocupações está o verbo prover e só depois o verbo prever, invertendo a ordem lógica e natural das organizações, que têm como nobre missão assegurar, em última análise, a defesa e qualidade da vida humana.

Não quero imputar ao actual Governo, ou às suas principais figuras, a responsabilidade pelo desnorte que vamos experienciando – agora alargado à “guerra fria das vacinas” – e que levou o primeiro-ministro, António Costa, a definir a situação como «dramática», ou a ministra da Saúde, Marta Temido, a gritar no Parlamento «por favor, ajudem-nos».

O nosso problema é sistémico, transversal, antigo, e talvez faça parte do nosso ADN. A pandemia não explica tudo e o pior é aquilo que não se vê – ou não se quer ver – nas entrelinhas dos boletins diários emitidos pela DGS.

(*) Historiador e Investigador