Coimbra  19 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A pandemia dos combustíveis

25 de Fevereiro 2022

Há dias agarrei, por mero acaso, numa factura em papel, antiga e gasta pelo tempo, relativa ao abastecimento de combustível da minha viatura: estávamos em 2017 e, com pouco mais de 40 euros, atestei o depósito. De então para cá, não obstante sucessivos protestos populares, a verdade é que, com raras excepções, os preços acusam, de semana para semana, mês atrás de mês, ano após ano, uma tendência impressionante de crescimento.

Quando regressei, por estes dias, à necessidade de reabastecer levava aquele antigo valor de referência no meu pensamento, para estabelecer termo de comparação perante a anunciada nova subida do preço dos combustíveis: mais de 70 euros foi quanto paguei de atesto, numa inflacção galopante, realidade cruel ditada por normas e valores neoliberais, capitalismo selvagem e depredador no qual de todo me revejo, por me sentir filiado ao liberalismo original.

No posto de abastecimento, e imediatamente atrás de mim reparei numa viatura a gasolina, de marca e modelo semelhante à minha, que ultrapassara a fasquia dos 100 euros. Este valor, decerto interessante para a numerologia ou cabalística, traduzia, na verdade, o atingir de uma fasquia impensável, que tornam o nosso país um caso à parte no contexto europeu, que merece ser estudado.

Não só impensável, mas também incomportável para muitas famílias, como me relatou, na ocasião, um dos funcionários das bombas, com quem entabulei conversa. Meio envergonhado e quase a pedir segredo, foi-me narrando diversos casos de que tinha conhecimento trazidos do dia-a-dia: eram cada vez maior o número de pessoas que, aflitas, abasteciam e assumiam, no acto de pagamento, que “estavam a cortar na alimentação” para conseguirem manter a vida profissional dentro da normalidade possível.

Gostaria que o nosso Governo, recompensado nas urnas, recentemente, pelo esforço de gestão da crise pandémica, fosse também capaz de adoptar medidas eficientes atinentes ao minimizar dos efeitos desta “pandemia dos combustíveis”, que há muito pesam sobre a nossa economia, para gaudio do sistema das mais valias, mas com sério prejuízo do esforço económico nacional, em especial do familiar e empresarial.

Para isso poderia servir, por exemplo, a utilidade de uma maioria absoluta, regulando de outra forma um sector que há muito necessita de ser repensado, num país de pequena dimensão, como o nosso, que não produz a matéria-prima, mas que se deseja integrado num espaço e contexto socioeconómico europeu onde a promoção da igualdade e equidade (também económica) entre os estados-membros e concidadãos, se assumem como pilares fundamentais da coesão.

Este caminho, a não ser invertido, poderá conduzir a crises sociais incontroláveis, capazes de abalar regimes. E mais razão terão, não só na aparência, mas também na essência, ideologias que por serem fundamentalistas e extremistas, desejamos controlar, mas que aos olhos do povo carregam o penhor de justiceiros e donos da verdade.

Vale a pena pensar nisto…

(*) Historiador e investigador