Coimbra  24 de Junho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Kito Pereira

A oração da chegada…

1 de Setembro 2023

Há dias, num interessante programa televisivo, de novo olhei os Açores. Expectante, acompanhei os seus caminheiros na sua peregrinação de uma semana pela Ilha de São Miguel. Daquela sacrificada aventura de mais de trezentos quilómetros ao relento e à chuva, de dia e de noite, numa manifestação de grande religiosidade e de fé. A fé que acompanha o povo ilhéu, martirizado por catástrofes naturais ao longo dos séculos.

Por várias ilhas dos Açores andei e em cada uma o seu encanto. Todos os portugueses deviam visitar o arquipélago. Devia ser obrigatório. Por decreto. Aquelas portuguesas ilhas do Atlântico, nem precisam de se retocar como um qualquer elemento feminino na sua autoestima, pois a sua beleza natural é tão prodigiosa que dispensa lápis, batom ou rímel. É a natureza mais genuína no seu esplendor.

Fui seguindo todos os passos daquela caminhada triunfal de fé. Vi entrevistas com caminheiros de bordão, molhados até aos ossos, os pés exaustos. Impressionei-me com a sua determinação. Com o seu Crer no Divino. Eu, no meu cepticismo e na minha estouvada forma de olhar para o sobrenatural, admirava no meu silêncio aquela gente com um respeito infinito.

Nove jangadas semeadas no regaço do Atlântico

Amar os Açores. Amar as gentes. Amar um povo. Amar os nossos compatriotas nas suas nove jangadas semeadas no regaço do Atlântico. Longe, lá longe. Mas do longe se faz perto. Voar nas asas de Éolo. Olhar lá de cima o oceano prateado na sua intemporal solidão. São duas horas de muito mar que se estende melancólico por debaixo de nós, quando da vigia da nave desvendamos o horizonte infinito na procura de terra firme. Sentimo-nos navegadores dos tempos modernos. Como numa prova de estafetas, numa corrida que começou na época quinhentista, levamos na mão o testemunho dos nossos antepassados. Somos marinheiros improváveis dos tempos modernos.

O suave planar do pássaro que nos transporta. O leve acariciar dos pneus a tocar a pista da terra firme. Uma ilha a que chamam Terceira a receber-nos. Um hotel abraçado pelo mar a convidar ao repouso. Sentar numa cadeira de verga e olhar o Monte Brasil. Então, percebermos que estamos diante de Deus. Elevar as mãos aos Céus num agradecimento por tanta beleza. Degustar um prato regional. Beber um vinho reconfortante. Viver em comunhão com as gentes e da hospitalidade Terceirense. E murmurar em jeito de comovida prece: Bem Hajam, cheguei!